sábado, 26 de julho de 2008

Por que é tão escuro aqui?


Esse é o último final de semana para assistir a peça A Coleira de Bóris, de Sergio Roveri, dirigida por Marco Antonio Rodrigues. Eu fui ontem e recomendo muito.


Nicolas Trevijano e Rafael Losso interpretam os personagens presos em um lugar que não se sabe o que é. A cenografia, composta apenas por  fios de nylon transparentes e jornais no chão, compões uma bela imagem em conjunto com a iluminação, determinando o espaço da prisão e o lado de fora dela.


Um dos personagens está naquele lugar há muito tempo e já se acostumou, o outro acaba de chegar, diz ter sido capturado durante a tentativa de travessia para algum lugar onde a vida seria melhor, e quer sair dali. 


O ritmo intenso de ação no início, com movimentos sincronizados de capoeira e luta, é acompanhado por muitas perguntas e um diálogo rápido, travando um embate em que o acomodado e o inquieto se desafiam e tentam dominar um ao outro. Ao longo do espetáculo, o ritmo e as diferenças ente eles vão diminuindo, mas os questionamentos continuam. Uma história sobre uma mulher cega com um cão complementa a reflexão sobre viver em lugares escuros por escolha própria, o aprisionamento, a dependência, a impotência auto-imposta e a relação entre as pessoas.  A gente só vê o que a gente quer, mas será que o que vamos encontrar além disso é melhor mesmo?


Em um trecho muito bom eles discutem porque as pessoas que os prenderam fizeram isso. Não lembro exatamente as palavras, mas era mais ou menos isso:

- Se você fosse eles e eles fossem você, você faria a mesma coisa com eles.

- Não faria, porque eles não fizeram nenhum mal pra mim.

- Mas se você fosse eles, acharia que eles fizeram mal pra você.


O tipo de encenação e a interação entre os dois personagens me lembrou o espetáculo O Arquiteto e o Imperador da Assíria, de Fernando Arrabal, que assisti há algum tempo, com Paulo Vilhena e Beto Bellini, dirigida por Haroldo Costa Ferrari. 


Para quem não se liga em história linear, com tempo, espaço, começo, meio e fim definidos, e gosta de sair do teatro sem saber pra que lado ir, porque o que foi visto continua dominando o pensamento por um bom tempo, é uma boa pedida. Os dois atores também são ótimos e dão um show! Fiquei com vontade de ver de novo...


Direção: Marco Antonio Rodrigues
Com: Nicolas Trevijano e Rafael Losso
Texto: Sérgio Roveri
Duração: 60 minutos


Quando: Sábado, às 21h, e domingo, às 19h (últimas apresentações)

Onde: Espaço Satyros 1 - Pça. Franklin Roosevelt, 214- Tel 3258-6345

Quanto: R$ 25


* Foto de Lenise Pinheiro

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Um clima otimista de aniversário

quero ver você nao chorar , nao olhar para trás, nem se arrepender do que faz, quero ver o amor vencer, mas se a dor nascer , voce resistir e sorrir, se você pode ser assim, tão enorme assim, eu vou crer, que o natal existe, que ninguém é triste, que no mundo há sempre amor, bom natal um feliz natal, muito amor e paz pra você, pra você...

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Galera

Li ontem à noite. Além de escrever muito bem e ser inteligente, ele é lindo. 


Dá pra baixar » Download gratuito de versão em PDF 


E o site dele aqui.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Cada um com seus problemas

Na sexta-feira assisti um filme que achei ruim, "Uma garota dividida em dois". Conta a história de uma garota do tempo de um canal de TV local, de uns 20 e poucos anos, que se apaixona por um escritor de sucesso casado e com o dobro da sua idade. Os dois começam a ter um caso que termina depois que a menina já realizou todos os tipos de peripécias sexuais com o velho, e ele acaba enjoando dela. Só que ao mesmo tempo um jovem herdeiro milionário, que já tinha uma rixa com o escritor, se apaixona pela ninfeta e faz de tudo para conquistá-la. Ela não dá trégua e prefere ficar com o coroa. Depois que é abandonada e fica deprimida e largada na cama sem comer, é o rapaz que vai consolá-la. Eles acabam ficando juntos, mas o ciúme doentio dele, por considerar que o cara perverteu sua mulher, o leva a um ato extremo. No final, quem se ferra é a menina e o filme termina com um trocadilho tosco.


O nome não tem muito a ver, porque em nenhum momento a menina estava dividida, ela sabia o tempo todo que queria ficar com o velho e estava apaixonada por ele. A verdade é que ela não teve escolha, e quando viu que o cara não ia abandonar a mulher porque "não tinha nada contra ela" (existia no casamento algo como um pacto de cegueira: eu finjo que não vejo e vc não fala nada, assim continuamos levando nossa vida feliz de casal bem sucedido), resolve ceder às investidas do riquinho mimado, que "a amava e só queria o seu bem" - o cara sempre teve tudo e ela era a primeira que estava lhe dizendo não, mas, como água mole em pedra dura...


No final, os ricos se dão bem, a sociedade fica escandalizada com "barbaridades sexuais envolvendo pessoas respeitáveis" e os inocentes se fodem.


Ruim, mas c' est la vie...

Cartas a um jovem poeta

"Mas tudo o que talvez um dia ainda seja possível para muitos o solitário pode, já agora, preparar e e construir com suas mãos, que erram menos. Por isso, caro senhor, ame sua solidão e suporte a dor que ela lhe causa com belos lamentos. Pois os que são próximos ao senhor estão distantes,  é o que diz, e isso mostra que o espaço começa a se ampliar à sua volta. Se o próximo está longe, então o que é distante vaga entre as estrelas, na imensidão. Alegre-se com seu crescimento, para o qual não pode levar ninguém junto e seja bondoso com aqueles que ficam para trás, seja seguro e tranquilo diante deles, sem perturbá-los com suas dúvidas nem assustá-los com uma confiança ou alegria que eles não poderiam compreender. Procure constituir com eles algum tipo de comunhão simples e fiel, que não precise ser alterada à medida que o senhor mesmo se modifica cada vez mais. Ame neles a vida em uma outra forma e seja indulgente com pessoas mais velhas que temem a solidão na qual o senhor tem confiança."

Rilke

sábado, 19 de julho de 2008

Dias Felizes - Samuel Beckett

No primeiro ato, Winnie está enterrada até a cintura. No segundo ato, Winnie apresenta-se enterrada até ao pescoço. 

"Winnie está dolorosamente consciente da sua situação física, mas não do seu absurdo. É essa inconsciência que faz a própria força de Winnie. Ela reconstrói-se com uma graça e tenacidade extraordinárias, tentando afastar o sentimento de incapacidade que cresce."

Paul Lawley

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Se não aguenta o tranco, não entra no jogo...

É isso...

Ciúmes

Um ponto vermelho na pia da cozinha. E outro, e outro, e outro depois, como que marcando o piso com a trilha de volta pra casa. Seguiam para a sala e estampavam o tapete branco, como as últimas confetes esquecidas no chão depois de uma noite de carnaval. E se misturavam com o quebra-cabeças de imagens picadas das fotos que contavam a história de um amor agridoce. As indefectíveis almofadas de veludo ganhavam uma certa alegria melancólica com as gotas cor de carmim. 


E eles continuavam pela escada, tingindo a madeira macia. Iam pelo corredor e se transformavam em manchas nos lençóis brancos adornados com bordado inglês. Os travesseiros de plumas tinham as fronhas encarnadas e úmidas. 


Ainda brincando serelepes pelo carpete, os pontinhos faziam sua trilha até o banheiro. No espelho, digitais borradas lembravam as mensagens apaixonadas antes deixadas com batom. 


Da banheira vitoriana, transbordava uma água tingida com a cor do amor visceral, contrastando com o alabastro da pele que agora não sentiria mais a ânsia desesperada do toque. Os cabelos negros e lisos muito bem cuidados com shampoos caros e cafunés formavam ondas na água. As mãos pequenas, com as unhas sempre impecáveis como se todos os dias fossem de casamento, estavam agora imunes ao desejo de poder segurá-lo e tocá-lo com exclusividade a cada minuto do dia. E o olhar verde e vago, acostumado a inundar-se com lágrimas desconfiadas de insegurança, mostrava agora uma tranquilidade indiferente, quase blasé. 


O celular no chão mostrava 47 chamadas exaustas e sem resposta para o mesmo número, que receberia mais tarde a mensagem: Te amo mais do que a mim mesma e isso é mais do que eu posso suportar.

Wish list


- Moleskine novo, pq o meu só tem mais uma página
- Um livro, mas tem que ser um que você já leu e fez alguma diferença na sua vida (nada de auto-ajuda)
- CD com uma seleção de músicas feitas por você
- DVD de filme clássico, pq ainda tem um monte que eu não assisti e fico me sentindo uma idiota
- Convite para ver um filme ou uma peça
- Um gravador de voz digital
- Uma festa de aniversário à moda antiga, com bolo Nega Maluca, brigadeiro, olho de sogra, sanduiche de pão de forma com patê de presunto, coxinha, empadinha com azeitona e barquete
- Um pique-nique no campo, onde as pessoas vão poder ler seus trechos preferidos de livros e poesias
- Um escrito seu

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Da série "Os menores prazeres da vida" I

Há algum tempo comecei a fotografar com meu celular momentos em que estava sentindo um bem-estar muito, muito grande. Coisas que representassem aquele segundo em que eu poderia dizer: "Eu sou feliz!" 
Um cheiro, um sabor, uma imagem, um toque, um som, que despertam reações químicas no corpo e dão aquele sensação de prazer.
Infelizmente, não consegui passar até agora essas fotos pro meu computador, por incompatibilidade com o celular - coisas da tecnologia. Então, para não perder a idéia, resolvi usar imagens semelhantes.
Aí vai a primeira:
Pra começar o dia bem: Bem cedo, na lanchonete da esquina, com bastante manteiga de verdade e bem torradinho. 
De preferência sem leite e com pouco açúcar.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Recorde

310 acessos hoje...
Estamos evoluindo.

Aproveita enquanto é tempo


Teatro da Curva apresenta Medusa de Rayban

Texto: Mário Bortolotto

Direção: Didio Perini

Com: Ralph Maizza, Daniel Sommerfeld, Paulo de Tharso, Murilo Salles, Ricardo Gelli, Celso Melez e Celso Tourinho


Quando: Sábado as 24h, até 26 de julho 

Onde: Teatro X - Rua Rui Barbosa, 399

Quanto: R$ 20,00 (meia R$ 10,00)


Esses caras são muito bons, a trilha sonora é ótima, e o espetáculo, apesar de falar de assassinos, rende boas risadas.

Muitas felicidades

Semana que vem é meu aniversário. Ontem ganhei um presente. Uma conversa com alguém muito bacana, que está me fazendo pensar até agora. Pessoas assim me ajudam a não sentir tão sozinha no mundo, mas ao mesmo tempo reforçam a sensação de estar deslocada, fora do lugar, ou no lugar errado na hora errada. E penso: mas existe um lugar certo e uma hora certa?
Ganhei também livros autografados, um CD de blues e o tratamento de lady. Bom, né?
Coisas assim não acontecem todos os dias com menininhas como eu.
Feliz, mas ainda sentindo resquícios de um soco no estômago. Era pra ser assim tão fácil?

Out of place

Eu quero ser uma boa menina

E fazer as unhas toda semana

E usar esmalte cor de carmim


Eu quero ser uma boa menina

E almoçar em restaurantes bacanas

Tomando coca light com gelo e limão


Eu quero ser uma boa menina

E ler os best-sellers da semana

E assistiir ao último lançamento de Hollywood


Quero ir na micareta, na festa do peão, no samba-rock

Usar a bota da moda

E ter uma bolsa de couro legal


Quero ir no japonês conversar sobre a atriz da Globo

E me indignar com a violência estampada na capa do jornal

Enquanto tomo caipirinha de sakê com morango


Quero sair cedo pra trabalhar, reclamar do chefe na hora do almoço

E voltar pra casa cedo pra assistir a novela

E só sair de maquiagem no rosto, chapinha no cabelo e salto nos pés


Quero ser uma boa menina

E meus amigos e minha família vão gostar de mim

E vão lembrar de me chamar quando forem ao japonês


E os caras vão gostar de mim e me chamar pra comer pipoca com manteiga no cinema

Vão me deixar em casa e eu vou subir deixando um beijo quente e o sexo pra amanhã

E eles não vão me ligar no dia seguinte e eu vou reclamar na mesa do japonês pras minhas amigas que gostam de mim


Quero ser uma boa menina e fazer planos

Como todo mundo deve fazer

Mas eu não acredito em geladeira cromada, em TV de plasma, em matrimonio e em aposentadoria


Eu queria acreditar...

Assim eu seria uma boa menina

Reforçando convicções

O pensamento é uma maldição.

... mas eu não sou uma policial, eu sou uma princesa...

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Minha matéria prima é a minha vida...


"O primeiro personagem que um escritor cria é ele mesmo. Só os imbecis procuram um eu atrás do texto literário. Em literatura, a própria "sinceridade" é apenas uma jogada de estilo. Um escritor medíocre não consegue ser "sincero". Técnica, coração. Para ser sincero, é preciso dispor das técnicas que indiquem, signem, sinceridade. Sem isso, a mais pura das explosões verbais, a mais direta, a mais espontânea, será apenas mais uma manifestação de imperícia literária. Um amontoado de bobagens que o tempo vai se encarregar de destinar ao lixo, onde jazem as ilusões." (Leminski)

Quando jovem, abandonou a faculdade e decidiu que queria viver de escrever e viver para escrever. Começou a produzir textos semi auto-biográficos, com histórias de uma personagem que era seu alter-ego. Nelas, retratava acontecimentos cotidianos de uma vida intensa e sem compromisso e onde a realidade se confundia com a ficção, tornando impossível distinguir o que realmente teria acontecido e o que era fruto de sua criatividade. Na verdade, o único compromisso que tinha era com a escrita e com as palavras. E era mais que um compromisso formal, era uma paixão. Algo mais forte do que tudo, que se tornou o ponto central de sua existência, sua busca e seu apoio. Por meio das palavras, pôde expressar de forma intensa e sem medida sentimentos como a dor, o amor, a solidão, a saudade e a vontade de ser livre. Publicou alguns contos em uma revista, uma coletânea de contos e algumas novelas com sua personagem, que acabou indo parar nas telas do cinema.


Se considerarmos que a pessoa descrita acima é um homem e nasceu nos EUA em 1909, estaremos falando de John Fante e seu personagem será Arturo Bandini. Se pensarmos que é uma jovem brasileira de Porto Alegre, então a descrição será de Clarah Averbuck, que criou Camila Chivrino. O que separa os dois, além dos anos, é a tecnologia. Enquanto Fante escrevia contos e enviava para revistas, que nem sempre publicavam, Clarah escreve posts e publica em seus blogs. Muito mais prático e independente, uma vantagem que ela leva sobre ele.


A influência e a fascinação da blogueira - que abomina o termo "literatura de blog", criado quando lançou seu primeiro romance - pelo autor não é segredo. Em seu primeiro livro, Máquina de Pinball, ele é citado, assim como Bukowski, outro de seus ídolos, que também levou uma vida parecida. Boêmios assumidos, álcool, noitadas e aventuras sexuais não faltam nas obras do trio. A capacidade de transformar isso em literatura também os une. Repulsa, nojo, ódio, amor, paixão e melancolia são temas recorrentes. O fato de viverem tudo isso e relatarem sem pudor, acaba gerando polêmica. É o que acontece agora com Clarah, que ganha os holofotes com a estréia no dia 18 de julho da adaptação de sua obra para o cinema, o filme Nome Proprio, dirigido por Murilo Salles, que traz Leandra Leal no papel da personagem Camila. 


A partir dos livros Máquina de Pinball e Vida de Gato e dos blogs de Clarah, Salles construiu a personagem e desenhou uma história para ela. Uma blogueira de Brasilia que vem para São Paulo após terminar com o namorado e, depois de um período de sofrimento, dor, solidão e isolamento, passa a viver intensamente e inconsequentemente a noite paulistana e seus prazeres. Seu objetivo é escrever um livro e, enquanto isso, conta todas as suas aventuras e dramas em um weblog. Apesar de Camila dizer no filme que seu blog não é um diário e Clarah dizer que nem tudo o que escreve é realidade, ao acompanhar a história da personagem no filme e conhecer um pouco mais sobre a autora, fica difícil concordar. No entanto, o próprio filme tenta reforçar essa idéia, fazendo a personagem criada por Clarah e por Murilo criar, dentro do filme, uma outra história e uma outra personagem que também se confunde com ela própria.


A super exposição sem medo nos blogs, nos livros e no filme, causa estranhamento mesmo em tempos de Big Brother, com a diferença de que por meio de uma personagem assumidamente inventada, Clarah parece mostrar a si mesma completamente, com toda a sua intensidade, personalidade, desejos e dores. Algo criado para ser ficção que parece mais autêntico do que o que se diz realidade hoje.  E talvez por isso cause polêmica. O que importa é que Clarah, e a Camila Lopes do filme, são coerentes com o que se propõem a fazer. Uma obra e uma vida descompromissada com o pensamento e o julgamento alheios e fiel às suas próprias regras e vontades, muitas delas pautadas, ou reforçadas, por Fante e Bukowski.


O filme


Com estréia marcada para a próxima sexta-feira, 18 de julho, o filme abusa de cenas de nudez, sexo e palavrões para retratar a vida intensa de Camila. Levando em conta o contexto, não fica exagerado e é aceitável.

 

Os personagens coadjuvantes não tem a personalidade aprofundada, chegam a ser estereotipados, e isso talvez incomode um pouco (o amigo que vive um amor platônico, o nerd, o cara do interior, a amiga traída, o cara cachorro que se faz de bonzinho). Mas o objetivo da história é mesmo girar em torno de Camila e mostrar seus conflitos internos, sem muita interação com o mundo. Ela não liga para o que os outros pensam, por isso parece ser uma pessoa solitária e isolada. É obcecada por seus pensamentos e por suas palavras, não tem tempo nem vontade de olhar para o outro e tentar enxergar toda a complexidade que pode existir fora de si mesma. O negócio de Camila é aproveitar o aqui e o agora, já que não encontra ninguém com quem ache que valha a pena construir algo mais profundo. Talvez por isso, as pessoas com quem se relaciona no filme sejam mostradas sem nenhuma profundidade, que é como ela as vê, já que está tão preocupada com ela mesma que nunca dá ao outro chance de um segundo olhar. 


Vale a pena assistir, primeiro por ter vindo da obra da polêmica Clarah Averbuck. Leandra Leal realmente incorporou a personagem e está ótima. A intensidade beat com que a autora escreve está presente na Camila do filme, que, no entanto perdeu um pouco do sarcasmo e da ironia da personagem dos livros e ganhou um pouco mais de sofrimento e dor. A impressão que dá é que seu maior divertimento é se vingar do mundo que a faz sofrer.


No mais, muita gente deve se identificar com as situações vividas. Quem nunca se apaixonou e fez uma cagada? Quem nunca acreditou ter encontrado o amor verdadeiro e levou um balde de água fria? Além disso, a paisagem urbana, de bares e casas noturnas, com sua fauna tipica, deve fazer boa parte do público mais jovem se sentir em casa.


Acesse o blog do filme, o blog da Clarah Averbuck e leia na edição de julho da Bravo! a matéria da autora sobre ser blogueira, escritora e sobre o filme.


Nome Próprio

Data: sexta-feira, 18 de julho

Locais: Espaço Unibanco Augusta e Unibanco Artplex Frei Caneca


Direção: Murilo Salles

Elenco: Leandra Leal, Rosanne Mulholland, Milhem Cortaz, Juliano Cazarré

Duração: 130 minutos

Dele para ela

Não, eu não entendi tudo errado. Você quer ser vento, água, fogo. Mas esse estado plasmático, esse movimento incessante, essa sempre iminente fuga, só vão fazer a saciedade que você busca continuar escapando por entre seus dedos, como o ar, o líquido e a chama. Por que o concreto te assusta? A terra pode não ser uma carga tão pesada quanto aparenta. Seca, se transforma em areia, cujos grãos são levados pela brisa, ou por um sopro, numa nuvem etérea e fugaz. Também pode ser um castelo, uma figura qualquer, e ganhar as formas que você desejar. Depois, se transformar em outra, e outra, e outra, substituindo seu corpo como matéria-prima para sua inconstância. Você não vai entender isso agora, porque se eu não fui capaz de te fazer parar de olhar para os lados, não serei capaz de estimular em você as enzimas necessárias para a digestão destas palavras. 

Queimar uma história e querer ter páginas em branco para começar de novo é fácil. Mas não esqueça que depois de lida, ela se incorpora ao leitor e continua nele sua vida, mesmo que as páginas tenham sido destruídas. E é disso que as pessoas são feitas, das histórias, mas das assimiladas, porque as decoradas, cedo ou tarde, acabam esquecidas. Você pode tentar se esconder nas entrelinhas, no seu léxico, nos seus signos próprios, no braile que meus dedos não decifram, mas esse hermetismo disfarçado de liberdade não vai nunca te deixar ir além da página 5 de histórias que poderiam te mostrar o final feliz que você procura tanto.

Rapadura é doce, mas não é mole não


Há alguns dias fui à estreia do espetáculo Entulho, com direção de Ruy Filho, em cartaz no novo e simpático Centro Cultural Rio Verde, na Vila Madalena. O texto de Priscila Nicolielo me tocou pela poesia com que mostra como o mundo de aparências e estímulo ao consumo exacerbado faz com que o indivíduo perca sua identidade. Me lembrou a fala de um dos personagens do filme Beleza Americana: "Para ter sucesso, é preciso projetar uma imagem de sucesso". Em meio a centenas de peças de roupas, sacolas de compras, livros, jornais e fotografias, Guilherme Gorski interpreta um personagem angustiado, que consome compulsivamente, principalmente coisas de marcas famosas. A narração em off, nas vozes de Débora Falabella, Alberto Guzik e Pancho Capeletti, estimula a reflexão sobre como perdemos a inocência da infância, abandonamos uma vida simples e passamos a seguir os padrões impostos pela sociedade. Muito bonito e poético mesmo. Tudo tem um preço. Quer ser aceito no mundo? Venda sua alma para Armani, Chanel e companhia.


O outro lado dessa história encontrei no livro Atire no Dramaturgo, uma coletânea de posts do blog de mesmo nome do ator, dramaturgo, escritor, diretor, interprete, produtor, compositor, bluesman (...) Mário Bortolotto. Sem fazer concessões, o autor, que não dá a mínima para manter uma imagem de acordo com os padrões, diz ter orgulho de só ter feito o que gosta até hoje, dando mais importância para o prazer que um trabalho vai lhe dar do que para o dinheiro que vai ganhar em troca. É, mas tudo tem seu preço. Para ele, é ter que olhar um disco de jazz, ou um livro que quer ler, na vitrine de uma loja e não poder comprar. Ou ir para Paris e não poder entrar em um bar onde rola um som legal, porque a cerveja custa 2 euros. Ou ter no cardápio diário apenas as opções de churrasco grego, cachorro quente ou miojo. Segundo ele, a recompensa é poder olhar para trás e se orgulhar de tudo o que já fez até hoje e não ter nada para se envergonhar. Uma conversa honesta com amigos num boteco tomando vinho barato vale mais do que uma noite de glamour no Spot, tendo que falar o que as pessoas esperam ouvir. Viajar para o Rio de Janeiro por quatro finais de semana seguidos para levar ao palco uma história coerente com o que realmente acredita em troca de apenas trinta reais, vale mais do que conseguir uma bolada de patrocínio para encenar um besteirol comercial. 


O negócio é: qual é o preço mais alto e o que tem mais valor? O que proporciona maior felicidade? Aí voltamos na discussão de alguns posts anteriores. Qual é o peso da carga que você aguenta carregar?


Acesse: 

Atire no Dramaturgo


Leia: 

Atire no Dramaturgo (Coletânea de textos extraídos do blog homônimo) 

Atrito Art Editorial (comprado no sebo da Mercearia São Pedro, na Vila Madalena, por R$ 27,00, mas pode procurar no Sebo do Bac)


Assista:

Entulho

Local: Centro Cultural Rio Verde

Rua Belmiro Braga, 119

Vila Madalena - Zona Oeste - (11) 3459-5321

Preço: R$ 20,00

Quinta-feira às 21h, até 25 de setembro


Direção: Ruy Filho

Dramaturgia: Priscila Nicolielo

Elenco: Guilherme Gorski

Textos Gravados Em Off: Débora Falabella, Alberto Guzik e Pancho Capeletti

Preparação de Ator: Gustavo Palma

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Tédio

"Não é o tédio a doença do aborrecimento de nada ter que fazer, mas a doença maior de se sentir que não vale a pena fazer nada" (Fernando Pessoa, Livro do desassossego).

"Não suportamos viver sem algum tipo de conteúdo que possamos ver como constituidor de significado. A falta de sentido é entediante"
"Para ser capaz de se entediar, o sujeito deve ser capaz de se perceber como um indivíduo apto a se inserir em vários contextos de significado, e esse sujeito reclama significado do mundo e de si mesmo. Sem tal demanda não haveria tédio". (Lars Svendsen, Filosofia do Tédio).

sábado, 28 de junho de 2008

quinta-feira, 19 de junho de 2008

é nóis na SPFW...

O Journal é distribuído na Bienal e encartado no Estadão que é vendido nas bancas (assinante não recebe).
Hoje, uma matéria minha foi publicada no site, para ver, clique aqui.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

E a Nina responde...

Pra mim essa Laila não passa de uma vagabunda mal amada. Mas eu tenho pena, porque ela ainda não deve ter encontrado o amor de verdade. Essa história de Vanguarda dos Sentimentos é coisa de gente que tem medo de se envolver e de se comprometer. De entrar de cabeça em uma relação e assumir a responsabilidade disso. Afinal, nada é perfeito e quando você está com alguém, compra o pacote. Na minha opinião, amor é uma questão de respeito e admiração. Se você admira muito o outro não vai ter necessidade alguma de olhar pro lado, de procurar outras pessoas. E é isso que ajuda a criar e a manter a sensação de companheirismo, de querer estar junto, de querer melhorar e ajudar o outro a melhorar, a vontade de construir alguma coisa junto. Não é sentimento de posse, mas uma satisfação, uma saciedade, uma sensação de que tudo o que se precisa está ali e nada mais importa. Enquanto isso existir, a vontade de ficar junto vai ajudar a superar qualquer problema e o "ser feliz para sempre" vai acontecer, nem que esse pra sempre dure só até a semana que vem. Espero que a Laila consiga encontrar isso um dia, só assim essa busca louca vai terminar e ela vai saber o que é realmente amar, ser amada e ser feliz. Essa insatisfação eterna não leva a lugar nenhum e só causa desgaste e sofrimento pra ela mesma e para os outros.

Laila fala sobre amor na data mais romântica do ano

Eu acho ridículo esse negócio de te que ter alguém do lado pra se sentir completo. Que coisa mais possessiva! Pra mim esse amor romântico que espalham por aí não existe, é só uma invenção pra fazer os fracos e inseguros se sentirem melhor. Não suporto essa coisa de dependência, de ter que dar satisfação. Eu sou mais eu. Se quiser ficar comigo é assim, se não quiser, tem quem queira. Acho que essa é a maior fidelidade que se pode oferecer. A sinceridade, jogar limpo. Eu não engano ninguém, sou fiel a mim e aos meus desejos e vontades. Não quero e nem vou ficar me reprimindo. A vida é aqui e agora. A atração física e o desejo são sensações inerentes ao ser humano e eu sei que eu não sou a única pessoa interessante no mundo. Existem milhares por aí. Então, quem sou eu pra exigir que a pessoa que está comigo só tenha olhos para mim? Quer beijar? Vai lá e beija... não fica passando vontade. Só não me troque por ninguém. Odeio ser preterida e ficar em segundo plano. Exijo disponibilidade imediata na hora em que eu precisar. Preciso me sentir o centro das atenções, o centro da vida de alguém. Mas gosto de liberdade. Não quero ficar fazendo coisas só pra agradar, programinhas chatos no final de semana, tardes entediantes assistindo televisão. Não! Eu preciso respirar, me alimentar com idéias novas de pessoas diferentes. Preciso saber o que acontece na rua. Não quero ter a sensação de que todo mundo está se divertindo numa festa para a qual eu não fui convidada. Mas isso não quer dizer que eu não amo. Talvez eu ame muito mais do que quem se sente obrigado a ficar com alguém por alguma forma de compromisso. É um sentimento muito maior, muito mais puro, muito mais sincero, muito mais autêntico. Não preciso fingir nada, não vai haver desconfiança, joguinhos e incertezas. Assim não é muito melhor?

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Texto bonito

"As pessoas ainda não foram terminadas..."

Porque nosso DNA é incompleto, inventamos poesia, culinária...

 

Rubem Alves


terça-feira, 10 de junho de 2008

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Mais sobre gatos

O gato não oferece serviços. Ele se oferece. Claro que ele quer carinho e abrigo. O amor não é de graça. Como todas as criaturas puras, os gatos são pragmáticos. (...)


(...) Lobos e coiotes em estado selvagem são aceitáveis. O que deu tão errado com o cachorro doméstico? O homem moldou o cachorro doméstico à sua pior imagem... Virtuoso aos seus próprios olhos como uma multidão em um linchamento, servil e maldoso, cheio das piores perversões croprofágicas... e que outro animal tenta transar com a nossa perna? A pretensão canina à nossa afeição fede a sentimentalidade fraudulenta e fingida.


Não sou uma pessoa que odeia cães. Odeio aquilo em que o homem transformou o seu melhor amigo. O rosnado de uma pantera, sem dúvida é mais perigoso do que o rosnado de um cão, mas não é feio. A fúria de um gato é bela, incandescente com a pura chama felina, todo o seu pêlo eriçado lançando fagulhas azuladas, os olhos crepitantes. Mas o rosnado de um cão é feio, o rosnado de uma multidão de brancos racistas no linchamento de um paquistanês... o rosnado de alguém que usa um adesivo "Mate uma bicha por Jesus", um rosnado hipócrita e nervoso. Quando você vê esse rosnado, está olhando para algo que não tem rosto próprio. A fúria de um cão não é dele. É ditada por seu treinador. E a fúria de uma multidão em um linchamento é ditada pelo condicionamento.


Willian Burroughs - O gato por dentro

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Encontros Bravo! Fnac

Finalmente chegou a notícia mais esperada do meu mês: a divulgação da data e do tema dos Encontros Bravo! Fnac.

Dessa vez vai ser sobre Hamlet, que está na capa da revista, por causa da peça que estreia dia 20, com o Wagner Moura. Infelizmente o fofo não vai participar do debate, mas Marco Ricca vai representar os atores que já passaram pelo desafio de estar na pele do personagem.

Tem gente que já está cansada dos meus convites para os Encontros, mas eu não canso de avisar quando vai ter. Acho uma oportunidade muito bacana de participar de discussões com gente que entende do assunto, por isso, acho que quanto mais gente for, melhor!

Vai ser dia 11 de junho, às 20h na Fnac Pinheiros. Quem puder ir, com certeza vai me encontrar lá. Se alguém chegar antes, guarda um lugar pra mim! :)
 

terça-feira, 3 de junho de 2008

Trabalhar é amargo mas os frutos são doces...

Uma das qualidades que eu mais admiro nas pessoas é a capacidade de sentir paixão e de se deixar dominar por ela. Pode ser por outra pessoa, por uma causa, por uma idéia, por um trabalho. Quero falar aqui de trabalho. Alguém apaixonado se dedica de corpo e alma ao que faz e, por mais que adversidades apareçam, não perde a esperança, procura soluções e tenta fazer sempre melhor. Para ele, cada dia é uma descoberta, um motivo de alegria para viver.
Sei que é difícil encontrar pessoas assim, que realmente trabalhem por prazer. Na época em que prestei vestibular, ouvia as pessoas falando: “O mais importante é escolher uma profissão que você goste, porque se você trabalhar com amor o retorno vem depois”. E são as pessoas que têm a coragem de fazer escolhas pensando assim que eu admiro. Na verdade, a recompensa que vem depois nem sempre é financeira. O maior retorno pra quem faz o que ama é o próprio ato de poder fazer o que ama todos os dias
Pra essas pessoas não existe domingo deprimente e nem segunda-feira chata. Elas não começam a contar os dias pra chegada da sexta-feira logo na segunda. Não contam os minutos que faltam pra hora de almoço e nem pra hora de ir embora. Simplesmente porque estão sentindo prazer no que fazem. O trabalho que fazem as satisfaz e não é feito com esforço, nem por obrigação.
Tudo bem que é ótimo ver o saldo da conta com vários zeros no final do mês e nem todas as profissões rendem salários polpudos. Mas será que o tédio e a raiva que se passa todos os dias, pelo menos por oito horas, valem isso?
Durante a minha vida, que nem é tão longa assim, conheci algumas pessoas apaixonadas pelo trabalho. Lembro muito dos professores (já que até agora mais de 80% da minha vida foram passadas em salas de aula). Os que transmitiam esse amor pelo que estavam falando tinham muito mais credibilidade e foram os que mais conseguiram me ensinar, os que conseguiram deixar um pouquinho do que queriam dizer em mim e dos quais não esqueço até hoje.
Depois, no trabalho, vi que as pessoas apaixonadas pelo que faziam eram as que mais conseguiam incentivar suas equipes e fazê-las acreditar em um objetivo. Alguém que não acredita do fundo do coração no que está dizendo, fala, fala, fala, mas não consegue contagiar ninguém com nenhuma idéia. Ao contrário, por mais que tente, acaba deixando transparecer sua indiferença, má vontade ou até raiva por ter que fazer ou falar aquilo.
Todo mundo tem alguma paixão na vida. Algo que queira muito fazer e que proporcione um grande prazer. E com certeza é isso que a pessoa vai fazer melhor; melhor do que tudo o que já fez e melhor do que outros que fazem aquilo sem tanto amor. Pode ser apertar parafuso, arar a terra, concertar computador, fazer discurso, calcular, cuidar de criança ou pintar quadros. Mas a maioria das pessoas não acredita nelas próprias, prefere achar mais importante o que o outro pensa ou fala e tem medo de se arriscar. Afinal, o ser humano tende a buscar a segurança. Principalmente hoje, nessa “selva capitalista”, onde a vida não é fácil pra ninguém. Mas acredito que acaba valendo a pena e a recompensa vem.
Hoje, li na edição de junho da TPM uma entrevista muito bacana com a Nina Becker, estilista, cantora e vocalista da Orquestra Imperial, em que ela fala sobre isso:
“Descobri que podia ter um trabalho que só me desse prazer. Ainda fico passada quando penso , ´cara, vivo de tocar´”. (...) A maior novidade na vida dela é ter começado a compor. “Eu tinha a maior travação com isso. Achava que era só para pessoas geniais. Mas uma hora pensei: também posso fazer, foda-se”.
Tudo bem que ela tinha a casa da mãe para morar e não passou fome. Mas, como define o dicionário Huaiss, paixão é “o sentimento, gosto ou amor intensos a ponto de ofuscar a razão; grande entusiasmo por alguma coisa; atividade, hábito ou vício dominador”. Maior que a razão, ela nos impulsiona a encarar e ultrapassar qualquer desafio e perto dela as maiores dificuldades parecem pequenas.Bom, acho que cada um faz suas escolhas. Tem gente que prefere passar a vida fazendo algo que não suporta enquanto conta os dias pra chegada das férias e as moedas para gastar depois da aposentadoria. Eu prefiro os que não vêem os dias passarem e sofrem por pensar na possibilidade de não poderem fazer o que amam até o último dia de suas vidas. Espero que consiga ser um deles e que um dia alguém olhe pra mim e diga: “essa aí ama o que faz”.

domingo, 1 de junho de 2008

A Laila é uma gata?

É, a Laila é uma gata...
O que ela mais ama é sentir a liberdade de estar na rua e poder tragar,  junto com o ar frio e denso da madrugada, todos os desejos ocultos que as pessoas que dormem só conseguem realizar em seus sonhos.
E perceber que, por cima dos telhados, ela pode ir pra onde quiser, e conversar com quem ela quiser, e falar o que ela quiser, porque amanhã ela não precisa estar no mesmo lugar com as mesmas pessoas.

Ode aos gatos

Artur da Távola


Nada é mais incômodo para a arrogância humana que o silencioso bastar-se dos gatos. O só pedir a quem amam. O só amar a quem os merece. O homem quer o bicho espojado, submisso, cheio de súplica, temor, reverência, obediência. O gato não satisfaz as necessidades doentias de amor. Só as saudáveis.


Já viu gato amestrado, de chapeuzinho ridículo, obedecendo às ordens de um pilantra que vive às custas dele? Não! Até o bondoso elefante veste saiote e dança valsa no circo. O leal cachorro no fundo compreende as agruras do dono e faz a gentileza de ganhar a vida por ele. O leão e o tigre se amesquinham na jaula. Gato não. Só aceita relação de independência e afeto. E como não cede ao homem, mesmo quando dele dependente, é chamado de traiçoeiro, egoísta, safado, espertalhão ou falso.


“Falso”, porque não aceita a nossa falsidade e só admite afeto com troca e respeito pela individualidade. O gato não gosta de alguém porque precisa gostar para se sentir melhor. Ele gosta pelo amor que lhe é próprio, que é dele e o dá se quiser.

 

O gato devolve ao homem a exata medida da relação que dele parte. Sábio, é esperto. O gato é zen. O gato é Tao. Conhece o segredo da não-ação que não é inação. Nada pede a quem não o quer. Exigente com quem o ama, mas só depois de muito se certificar. Não pede amor, mas se lhe dá, então o exige.

 

O gato não pede amor. Nem dele depende. Mas, quando o sente, é capaz de amar muito. Discretamente, porém, sem derramar-se. O gato é um italiano educado na Inglaterra. Sente como um italiano, mas se comporta como um lorde inglês.

 

Quem não se relaciona bem com o próprio inconsciente não transa o gato. Ele aparece, então, como ameaça, porque representa a relação sempre precária do homem com o (próprio) mistério. O gato não se relaciona com a aparência do homem. Vê além, por dentro e avesso. Relaciona-se com a essência.

 

Se o gesto de carinho é medroso ou substitui inaceitáveis (mas existentes) impulsos secretos de agressão, o gato sabe. E se defende ao afago. A relação dele é com o que está oculto, guardado e nem nós queremos, sabemos ou podemos ver. Por isso, quando esboça um gesto de entrega, de subida no colo ou manifestação de afeto, é muito verdadeiro, impulso que não pode ser desdenhado. É um gesto de confiança que honra quem o recebe; significa um julgamento.

 

O homem não sabe ver o gato, mas o gato sabe ver o homem. Se há desarmonia real ou latente, o gato sente. Se há solidão, ele sabe e atenua como pode (enfrenta a própria solidão de maneira muito mais valente que nós).

 

Se há pessoas agressivas em torno ou carregadas de maus fluidos, eles se afastam. Nada dizem, não reclamam. Afastam-se. Quem não os sabe “ler” pensa que “eles não estão ali”, “saíram” ou “sei lá onde o gato se meteu”. Não é isso! É preciso compreender porque o gato não está ali. Presente ou ausente, ensina e manifesta algo. Perto ou longe, olhando ou fingindo não ver, está comunicando códigos que nem sempre (ou quase nunca) sabemos traduzir.

 

O gato vê mais, vê dentro e além de nós. Relaciona-se com fluidos, auras, fantasmas amigos e opressores. O gato é médium, bruxo, alquimista e parapsicólogo. É uma chance de meditação permanente ao nosso lado, a ensinar paciência, atenção, silêncio e mistério.

 

Monge, sim, refinado, silencioso, meditativo e sábio, a nos devolver as perguntas medrosas esperando que encontremos o caminho na sua busca, em vez de o querer preparado, já conhecido e trilhado. O gato sempre responde com uma nova questão, remetendo-nos à pesquisa permanente do real, à busca incessante, à certeza de que cada segundo contém a possibilidade de criatividade e novas inter-relações, infinitas, entre as coisas.

 

O gato é uma lição diária de afeto verdadeiro e fiel. Suas manifestações são íntimas e profundas. Exigem recolhimento, entrega, atenção. Desatentos não agradam os gatos. Bulhosos os irritam. Tudo o que precisa de promoção ou explicação os assusta. Ingratos os desgostam. Falastrões os entediam. O gato não quer explicação, quer afirmação. Vive do verdadeiro e não se ilude com aparências. Ninguém em toda a natureza, aprendeu a bastar-se (até na higiene) a si mesmo como o gato.

 

Lição de sono e de musculação, o gato nos ensina todas as posições de respiração e yoga. Ensina a dormir com entrega total e diluição no Cosmos. Ensina a espreguiçar-se com a massagem mais completa em todos os músculos, preparando-os para a ação imediata. Se os preparadores físicos aprendessem o aquecimento do gato, os jogadores reservas não levariam tanto tempo (quase quinze minutos) se aquecendo para entrar em campo. O gato sai do sono para o máximo de ação, tensão e elasticidade num segundo. Conhece o desempenho preciso e milimétrico de cada parte do seu corpo, ao qual ama e preserva como a um templo.

 

Lições de saúde sexual e sensualidade. Lição de envolvimento amoroso com dedicação integral de vários dias. Lição de organização familiar e de definição de espaço próprio e território pessoal. Lição de anatomia, equilíbrio, desempenho muscular. Lição de salto. Lição de silêncio. Lição de descanso. Lição de introversão. Lição de contato com o mistério, o escuro e a sombra. Lição de religiosidade sem ícones.


Lição de alimentação e requinte. Lição de bom gesto e senso de oportunidade. Lição de vida e elegância, a mais completa, diária, silenciosa, educada, sem cobranças, sem veemências ou exageros e incontinências.

O gato é um monge portátil sempre à disposição de quem o saiba perceber.

Bizarrice