Tem gente que acredita que os opostos se atraem, outros dizem que um relacionamento só pode dar certo quando as duas pessoas são parecidas, pensam da mesma forma e têm preferências em comum ("amar é gostar da mesma música", né João?). Na minha concepção de amor, na qual o requisito mais importante é a admiração que um sente pelo outro, ambas as visões estão certas. Acho que muitas vezes o que a gente mais gosta na outra pessoa é o que a gente não tem ou não é e não consegue ter ou ser. Por outro lado, tendemos a simpatizar com gente que tem as características de que gostamos em nós mesmos.Só que as duas situações tem seus efeitos colaterais. Na primeira, a convivência pode se tornar difícil porque chega uma hora em que cada um quer ir pra um lado, já que pensa de maneira diferente. Na segunda, o complicado é que se a pessoa tem o que a gente mais gosta na gente mesmo, ela pode ter também o que a gente mais detesta, os defeitos que a gente sabe que tem, mas geralmente não consegue encarar, nem mudar. E se não dá pra aceitar aquilo nem na gente, menos ainda no outro.
Independente de divergências, que são naturais, porque por mais parecidas que as pessoas sejam, cada uma é única, acho que quanto maior a admiração que um sente pelo outro, maior a chance de um relacionamento dar certo. Mas esse sentimento precisa ser reciproco, afinal ninguém merece ficar de baba ovo de alguém que o menospreza ou não está nem aí.
Acabei de descobrir na Wikipédia, que "admiração (do latim admirari) é um sentimento de assombro, surpresa ou espanto diante de uma situação. Na Filosofia, a «admiração» ou «espanto» é o princípio fundamental para começar a filosofar, ou seja, é um processo atrativo através do qual não passamos indiferentes perante qualquer coisa, colocando-nos em movimento, partindo de coisas simples para coisas mais complexas, terminando no conhecimento de si, como desconhecendo-se («só sei que nada sei», Sócrates) ou desconhecendo as coisas. Assim, admirar-se perante qualquer coisa é ter a capacidade de problematizar o que parecia evidente, procurando esclarecer o que se apresenta como obscuro". Como a curiosidade é o primeiro passo para o desejo (uma das frases que eu postei há alguns dias, tirada do livro O Burlador de Sevilha) e a admiração desperta a vontade de saber mais, admirar é o início para se desejar alguém.
Ao mesmo tempo, essa admiração acaba funcionando como um estímulo ao auto-desenvolvimento. Se a gente acha o outro realmente especial, o vê como alguém capaz de nos tornar melhor do que somos. Vemos que temos coisas a aprender, que o outro tem algo a nos agregar. Eu, pelo menos, já desejei me tornar uma pessoa melhor por causa de alguém, como se para merecê-lo, ou para que que ele também me admirasse, eu precisasse me melhorar. Mas isso não tem nada a ver com me subestimar, acho que é algo até saudável, porque proporciona uma evolução.
Da admiração também nasce o respeito, a paciência, a compreensão. Se houver tudo isso, os problemas encontrados pelo caminho acabam ficando menores e menos complicados, porque a vontade de estar junto vai ser sempre maior e haverá mais disposição para resolver as situações e entrar em acordo. Não haverá necessidade de impor opiniões, de mudar o ponto de vista do outro e, assim, ninguém sentirá que saiu perdendo. Porque ganhar é estar junto.
Daí, também, vem a idéia de que as pessoas se casam, ou procuram um parceiro, porque precisam de uma testemunha para suas vidas. No texto O Natimorto, do Lourenço Mutarelli, o personagem diz que tem a impressão de que deixa de existir para os outros quando não está por perto. Talvez essa testemunha que a gente procure seja alguém que vai fazer com que a gente exista sempre, porque vai estar sempre do nosso lado. Ninguém quer passar em branco e, é claro que se queremos que alguém testemunhe nossas vidas e se vamos testemunhar a vida de alguém, não vamos escolher qualquer um, né. A gente merece o melhor, merece que esse papel seja desempenhado por alguém especial e que nos dê orgulho durante essa longa caminhada (tudo bem, pode não durar tanto tempo, mas ninguém começa um relacionamento achando que vai acabar logo logo). E que isso seja reciproco, que alguém que vai presenciar todos os nossos passos e tropeços esteja disposto a nos aplaudir, a nos estimular e a nos dar a mão pra ajudar a levantar.
Testemunhar a vida também tem a ver com assistir. Não só no sentido de ser expectador, mas no de dar assistência, de cuidar. Quem ama cuida e quem não dá assistência abre concorrência, né? Quer dizer, não basta ficar na platéia, tem que participar.
Pra mim, isso é natural no amor que nasce da admiração e do respeito, só assim haverá o desejo de estar presente, de estar por perto sempre, de atuar junto. E assim ser alguém que vai fazer com que o outro não deixe de existir.
Mas isso é só a opinião de uma menininha que não sabe o que é amar e fica tentando racionalizar as coisas...