segunda-feira, 1 de setembro de 2008

terça-feira, 12 de agosto de 2008

É isso...

Hoje quero escrever só para registrar que eu sou uma pessoa de muita sorte. Trabalho em um lugar lindo. Venho de carona com duas pessoas muito bacanas, que conheci recentemente. Aliás, também tenho a sorte de sempre conhecer pessoas bacanas e, ultimamente isso tem acontecido muito. A gente vem ouvindo rádio no carro e eles têm muito bom gosto musical. No caminho, ouvindo aquelas músicas na estrada e conversando, me dá vontade de viajar e me imagino naqueles road movies em que as pessoas pegam uma estrada sem destino. Se eu fizesse isso, me desculpem os preconceituosos, mas uma das músicas que eu iria ouvir é Someday I´ll be saturday night, do Bom Jovi. Essa música me lembra minha adolescência e dá aquela sensação animante, apesar da letra ser meio triste, mas esperançosa.
Quando a gente chega no trabalho, pega um café e fica na varanda conversando um pouco antes de começar o dia. É uma casa com um jardim enorme, no meio do verde, com uma piscina e muitos passarinhos cantando. E aquele friozinho, mas com o sol da manhã esquentando e a luz no ar ainda meio branco da neblina da noite.
O meu trabalho também é uma delícia. Eu ajudo a editar uma revista feminina e também escrevo algumas matérias e faço entrevistas. Os assuntos são leves e gostosos de falar. Adoro pesquisar, descobrir coisas novas e conversar com as pessoas.
E a noite, depois que saio da editora, geralmente vou encontrar com meus amigos e amigas. Minhas amigas queridas que conheci na primeira assessoria de imprensa em que trabalhei em São Paulo. Outro lugar muito bacana, um ambiente agradável e descontraído, um lugar para fazer amigos mesmo. E eu adorava meus clientes. Esse é outro ponto em que tenho muita sorte, sempre trabalhei com pessoas legais, com quem aprendi bastante coisa. Nunca fiquei em luares que não me dessem prazer em trabalhar. Porque eu sou assim, preciso me sentir produtiva e aprendendo sempre, gosto de estar perto de pessoas que possam acrescentar alguma coisa na minha vida. E isso eu tenho conseguido. Já saí de lugares que não me proporcionavam tudo isso e, por sorte de novo, nunca fiquei mais de duas semanas sem trabalho.
Voltando aos amigos, como já disse, tenho a sorte de sempre conhecer gente muito bacana. Minhas amigas, por mais diferentes que sejam de mim, tentam entender minhas loucuras momentâneas e nunca me deixam de lado. Elas me agüentam quando, nas mesas dos bares, começo a ler os trechos de livros e poesias e até algumas coisas que eu mesma escrevi. E dão risada quando eu falo que eu vou fazer saraus na minha casa, para as pessoas lerem seus trechos preferidos de livros e poesias. E elas às vezes até me acompanham nos meus programas culturais. E também me chamam para ir ao samba, ao samba-rock e em lugares que eu nem gosto muito, com pessoas que não fazem meu estilo, mas eu vou e adoro, porque estou com as minhas amigas lindas, por isso me divirto.
Também tem as pessoas que conheci há pouco tempo, mas que têm me proporcionado momentos únicos, com conversas que me renovam. E eu já amo essas pessoas. Elas falam às vezes sobre coisas que eu não sei, que eu não entendo, que não fazem parte da minha vida, e eu fico viajando na conversa, mas adoro, porque depois quero descobrir o que é tudo aquilo que elas falam e leio, e ouço músicas, e vejo filmes, e aprendo...
Alguns outros amigos eu não vejo e não converso com muita freqüência, mas só de saber que eles estão lá, e às vezes falam um oi no msn, ou mandam um e-mail, ou aparecem na fotinho do orkut, e me fazem lembrar das coisas boas que já fizemos juntos, me fazem um bem danado.
Acho que amor não tem distância nem tempo, e os maiores amores, os verdadeiros, são tão óbvios que nem precisam de palavras ou de explicações. Não têm obrigação, eles simplesmente existem e a gente sabe que eles estão lá. E só de saber que eles existem a gente se sente seguro e profundamente feliz. Isso é amor de amigo, amor de querer bem, amor de irmão, amor de família. É aquele amor que faz você saber que pode ligar a qualquer hora do dia e da noite só pra falar oi ou pra pedir socorro, e pode não ligar, mas nem por isso ele deixa de existir. Mas isso é só o que eu acho, cada um ama a sua maneira.
Tá bom, acho que esse clima bucólico me deu uma síndrome de Pollyanna. Já que é assim, aproveito para agradecer ao vinho que eu tomo às vezes sozinha em casa, num momento só meu, que me dá um prazer solitário e único. Ao primeiro gole de cerveja e aos amigos que me acompanham nesse ritual. Ao frio na barriga que dá quando as luzes do cinema se apagam. E ao pensamento vazio cheio de vozes antes das luzes do palco se acenderem no teatro. Aos começos de manhãs brancas alegres e aos finais de tarde ansiosos e alaranjados. Ao Reginaldo Pujol Filho, que escreveu o livro que eu estou lendo e adorando. E ao cheiro dos livros que são abertos pela primeira vez. A Sade, a Schopenhauer, a Rilke, a Kerouac, a José de Alencar, a Garcia Marques, a Borges. Ao João Gabriel, que foi quem fez o maior elogio que já recebi na vida. Ao cara que na sexta-feira passou a mão no meu cabelo na hora que eu estava indo ao banheiro e falou sorrindo “Olha a Vivian aí”.
E às pessoas que tentam ver o lado bom das coisas, não ficam justificando e dando explicações. Porque a vida é assim e pronto.
Como disse Niemeyer, a data não é importante. A idade não é importante. O tempo não é importante. A arquitetura não é importante. O que nós criamos não é importante. Somos muito insignificantes. O que é importante é ser tranqüilo e otimista.
É isso...

...

Se não sabe fazer melhor, não critica
Se não veio ajudar, não atrapalha

domingo, 10 de agosto de 2008

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Significados

As mesmas palavras podem transmitir idéias completamente diferentes, dependendo do contexto e da forma como são ditas, mesmo que pela mesma pessoa.
Na ultima sexta-feira, assisti ao espetáculo Nossa vida não vale um Chevrolet. Eu já tinha lido o texto original do Mário Bortolotto e visto o filme Nossa vida não cabe num Opala, que é a adaptação da peça para o cinema. Apesar de toda a força da história estar do texto, as palavras apenas impressas não tem tanta vida quanto as faladas pelos atores, por mais imaginação que se tenha. Afinal, é teatro e foi escrito para ser interpretado, e não lido. O ritmo, a entonação, os gestos e trejeitos, os olhares, a movimentação, determinam o clima do que é contado. Até mesmo os espaços são definidos pelos atores, já que no palco nu o cenário é criado na nossa imaginação.
A peça tem um tom mordaz e intercala cenas que chegam a ser cômicas com momentos mais sérios e pesados, principalmente do meio para o final. Lembro que quando meu irmão era bem pequeno, perguntou pra minha mãe o que era irônico e ela respondeu que é quem ri sem ter vontade. Acho que é isso, aquela sensação de “rir para não chorar”, uma vontade de dar risada da desgraça alheia, mas sabendo que no fundo o “alheio” sou eu. No final, fica o vazio que, assim como o palco sem ornamentos, é o espaço pra gente pensar (se é que dá pra fazer isso quando se está desnorteado).
Já o filme, tem uma pegada mais dramática, não é tão sarcástico, mas nem por isso menos incisivo. Pra mim, a grande diferença é que o filme é mais direto e a peça exige um olhar mais apurado - sem ele pode parecer simples e até boba em alguns momentos. Essa diferença fica bem clara na ótima atuação do Gabriel Pinheiro, que faz o mesmo papel no cinema e no palco, em boa parte com o mesmo texto, as mesmas palavras, e consegue dar contornos diferentes ao personagem, de forma muito coerente com o todo.
Bom, quem quiser conferir com os próprios olhos, ainda tem mais três sextas-feiras para ver a peça. O filme estréia no próximo dia 15 e vale muito a pena, tanto por tudo o que já falei, quanto pelo trabalho dos atores Leonardo Medeiros, Maria Luiza Mendonça, Milhem Cortaz e Maria Manuela. E tem a Dercy, em uma participação rápida como... Dercy, sua última atuação no cinema. Ah, a trilha sonora também é de delirar, assim como a da peça, ambas de responsabilidade do Bortolotto.

Nossa vida não vale um Chevrolet

Onde: Espaço dos Parlapatões - Praça Roosevelt, 158

Quando: Estréia dia 01 de agosto, a meia-noite

Quanto: R$ 20,00


Texto, Direção, Sonoplastia e Iluminação: Mário Bortolotto

Elenco: Fernanda D´Umbra, Laerte Mello (Nelson Peres), Mário Bortolotto, Gabriel Pinheiro, Francisco Eldo Mendes, Paulo Jordão, Thiago Pinheiro e Helena Cerello

Operação Técnica: Marcelo Montenegro

Direção Técnica: Régis Santos

Produção: Dani Angelotti


Nossa vida não cabe num Opala


Direção: Reinaldo Pinheiro

Elenco: Leonardo Medeiros, Milhem Cortaz, Gabriel Pinheiro, Maria Manoella, Jonas Bloch, Maria Luiza Mendonça, Paulo César Peréio

Participação: Marília Pêra, Derci Gonçalves e Maguila

Estréia: 15 de agosto


segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Escapamento

O carniceiro em foco

Columba picazurus

Eu não troco uma boa conversa por nada (quase) nunca. Ficar algumas horas conversando com alguém (dependendo da pessoa) pode ser muito mais enriquecedor do que ler um livro, por exemplo. Isso porque na conversa a informação corre em mão dupla. Raramente se tem a chance de discutir as idéias de uma obra com o autor. O que ele criou é aquilo e pronto, não dá pra questionar nada ali, na hora em que se lê. Em uma conversa o feed back é imediato, e não só com palavras. Por meio de todos os sentidos é possível perceber o outro, sentir a pessoa. Uma risada, o agito dos pés, o suor nas mãos, um olhar ou um piscar de olhos revelam coisas muitas vezes não ditas.
Mas o que mais me atrai em uma boa conversa com gente interessante é o embate que se trava entre pontos de vista diferentes. Não, eu não gosto de briga, gosto de desafio. Ser questionado estimula o pensamento e acaba proporcionando descobertas de coisas que às vezes nem nós sabemos sobre nós mesmos. Do mesmo jeito, questionar o outro permite entendê-lo e entender o outro amplia nossa visão do mundo.
Pra mim, não existe melhor sensação do que me sentir alimentada depois de uma conversa. Mas com um detalhe: esse alimento nunca satisfaz. Posso ficar horas, virar uma noite conversando que, se o papo for bom, não vou sair satisfeita, saciada. É como um vício.
Já me criticaram por isso, dizendo que não devia questionar tanto, que devia tentar pensar menos, perguntar menos e olhar a vida de um jeito mais simples. Mas eu gosto!
O Kings of Convenience tem uma música que diz assim: “She'll talk to you, with no one else around, but only if you're able to entertain her, the moment conversation stops she's gone, again”. É isso, entende?
E agradeço pelas conversas interessantíssimas com biólogos sarcásticos de riso estranho e contagiante, regadas à água, que seguem ao longo da madrugada, até a aurora boreal nos expulsar para casa.

domingo, 3 de agosto de 2008

Sobre o direito de ter opinião (e o dever de pensar sobre ela)

Estava conversando esses dias com uma amiga, a mesma que me pediu para escrever sobre ciúmes. Ela estudou comigo na faculdade, é uma menina super inteligente e escreve muito bem. Estávamos falando alguma coisa sobre escrever, eu disse que ela deveria escrever mais, já que é boa nisso, quem sabe começar um blog. Ela disse que não se sentia segura, pois provavelmente ia escrever besteiras.

Foi aí que começou nossa conversa sobre opinião. Repito aqui o que disse pra ela. Todo mundo tem direito de ter sua própria opinião e sua própria visão sobre qualquer assunto. A opinião de alguém depende da vivência e do repertório da pessoa. Por isso aquela famosa frase: "é próprio das pessoas inteligentes mudar de opinião". Isso não significa ser volúvel, indeciso ou inseguro. Errado, pra mim, é alguém que se agarra às suas concepções e se fecha para o resto do mundo. É importante manter a abertura do olhar e do pensamento para coisas novas e diferentes pontos de vista. Daí vem a mudança de opinião, conhecer outras coisas proporciona um embasamento maior para avaliar o que se vê.

Uma pessoa de 50 anos, por exemplo, possivelmente tem mais ferramentas para analisar um livro do que eu, que tenho 26. Ela provavelmente já leu muito mais do que eu e pode comparar uma obra com muitas outras mais. Mas nem por isso minha opinião sobre o livro pode ser considerada errada. Posso não ter um olhar tão profundo, mas tenho o direito de ter o meu olhar, de acordo com aquilo que já vi e vivi.

Penso mais ou menos assim sobre julgar a obra de alguém, seja um livro, uma música, um filme ou uma peça. Antes de dizer simplesmente se aquilo é bom ou ruim, é preciso saber qual é a proposta do autor. O ponto é: ele é coerente com o que se propõe a fazer? Entender o pensamento do outro e olhar para outras coisas que ele fez é importante para não ter um julgamento preconceituoso. Da mesma forma funciona o entendimento da opinião de alguém. Por que ele achou aquilo bom ou ruim? Em que ele se baseou? Quais são os conceitos que ele usou para formular sua opinião?

Às vezes, isso pode valer até pra gente mesmo. Vale a pena pensar porque eu cheguei àquela conclusão sobre alguma coisa - nem sempre a gente faz isso, né? - em vez de simplesmente fazer um julgamento simplista. Desde que você consiga achar essas respostas para si mesmo, pode dar sua opinião sobre qualquer coisa para quem quiser. Desde que saiba defendê-la. 

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Dulcinéia na Mercearia

Unir arte, boemia e integração social. Lindo e delicioso, né?

Um exemplo disso é o projeto Dulcinéia Catadora, que até sábado, dia 2, estará na Mercearia São Pedro, na Vila Madalena, fazendo as capas para a nova edição do livro Antologia Bêbada. Oraganizada por Joca Reinera Terron, a publicação traz 17 contos que se passam na mesa do bar, de autores (e boêmios) como Xico Sá, Marcelino Freire, Antonio Prata, Andréa Del Fuego, André SantÁnna, Bruno Zeni, Chico Mattoso, Clarah Averbuck, Índigo, Ivana Arruda Leite, José Alberto Bombig, Matthew Shirts, Nelson de Oliveira e Ronaldo Bressane, entre outros.
O livro foi dividido em três partes e cada uma pode ser comprada por R$ 5,00. Segundo o blog da Ivana, também dá pra comprar na Galeria Vermelho (R. Minas Gerais), no Sebo do Bac (Pça. Roosevelt), na tenda d´O Autor na Praça (feira da Benedito Calixto) e na Livraria Realejo (em Santos).

Acesse a página do projeto:
Dulcinéia Catadora

Vá a Mercearia:
Rua Rodésia, 34 - Tel 11 3815-7200

Ps: A foto é da Antologia do meu amigo Lucas Pretti, que foi comigo ao lançamento na terça-feira, em uma noite muito divertida e agradável.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Sobre o que queremos (e podemos) ser

Uma criança nasce. Ela pode ser como uma bola de argila, pronta para começar a ser moldada aos poucos, forma por forma, relevos e depressões, até gerar algo antes indefinido. Mesmo depois de pronta a imagem e seco o barro, ela não permanece intacta, pois um esbarrão, uma queda, ou o próprio tempo, poderão criar novas marcas e desgastes imprevistos, que passarão a fazer parte dela.


Ou então o bebê pode ser como um balão de gás. Pequeno e aparentemente flexível, aos poucos, com o ar inflado em seu interior, adquire sua forma, que já estava pré-definida. Por mais que se aperte, torça ou puxe, seu formato final é aquele e não irá mudar.


Imagine agora uma família que vive na periferia. São quatro filhos, três homens e uma mulher, a mãe é ausente e o pai um ladrão de carros. Esses quatro filhos são como a bola de argila ou como o balão de gás? Será que o destino dos quatro já está previsto e eles não poderão mudar, como o balão, que muda de forma quando apertado, mas depois volta ao original? Eles cresceram vendo o pai roubar carros, em um lar desfeito e com valores fora dos padrões. Isso torna a degradação um caminho sem volta para os quatro?


Ou será que é possível que tenham perspectivas além daquele mundo em que vivem e consigam se moldar de formas diferentes, como a argila? Quão fortes eles são para ultrapassar os paradigmas que os cercaram durante toda a vida? E, mais importante, será que eles querem mesmo mudar alguma coisa?


Até onde essas pessoas conseguem chegar você descobre no espetáculo Nossa Vida não vale um Chevrolet, com texto e direção do Mário Bortolotto, que estréia sexta-feira, dia 2, à meia-noite no Espaço dos Parlapatões, em uma curtíssima temporada de quatro apresentações.


Olhar para uma família de criminosos da periferia parece distante e chega a comover. Coitados, né!? Mas essa não é uma história sobre problemas sociais. Tão longe, mas tão perto... Muito mais do que você imagina... E não espere um final feliz.

Onde: Espaço dos Parlapatões - Praça Roosevelt, 158

Quando: Estréia dia 01 de agosto, a meia-noite

Quanto: R$ 20,00


Texto, Direção, Sonoplastia e Iluminação: Mário Bortolotto

Elenco: Fernanda D´Umbra, Laerte Mello (Nelson Peres), Mário Bortolotto, Gabriel Pinheiro, Francisco Eldo Mendes, Paulo Jordão, Thiago Pinheiro e Helena Cerello

Operação Técnica: Marcelo Montenegro

Direção Técnica: Régis Santos

Produção: Dani Angelotti

Retornável

Como comentei em um dos posts anteriores, eu comecei a trabalhar em uma revista feminina que fala bastante sobre sustentabilidade, responsabilidade ambiental e social. Ler, falar e ver isso o dia todo acaba me influenciando. Todo mundo fala sobre o assunto, todo mundo sabe o que tem que ser feito, mas a gente nunca para pra pensar se a gente mesmo tá fazendo alguma coisa. Já comentei também que não acho que o mundo vai melhorar, mas nem por isso a gente precisa ajudar a acabar com ele mais rápido. Pequenas coisinhas que parecem nada e nem dão trabalho pra fazer ajudam também a deixar a consciência mais tranquila.

Uma coisa legal, pra começar, são as sacolas retornáveis. As sacolinhas de plástico são um problema no lixo, demoram para se degradar na natureza e são pouco aproveitadas na reciclagem. E são milhões descartadas por dia, já que todo lugar que a gente vai, quitanda, farmácia, livraria, locadora, banca, shopping, supermercado, recebe pelo menos uma delas. Então resolvi aderir e não aceito mais sacolas em nenhum lugar, a não ser que não tenha jeito mesmo. Eu tenho algumas sacolas de lona lindas em casa, que ganhei em eventos, nas elas não são muito práticas pra levar, porque mesmo dobradas são volumosas. Então achei uma bem legal no Pão de Açúcar, preta, de nylon, que é leve, dobrável e vem com uma capinha para guardar, fica parecendo um guarda-chuva e dá pra levar na bolsa ou deixar no carro (o que não é o meu caso, já que não tenho carro). Achei super prática porque cabe bastante coisa e não preciso ficar carregando aquele monte de sacolinhas que enrolam na mão e prendem a circulação nos dedos, e não fico afogada naquele mar de plástico quando chego em casa. Agora tudo o que eu compro jogo ali dentro. Ah, e claro que se a compra é pequena, uma revista, um remédio ou algo assim, dá pra guardar direto na bolsa, no bolso ou mochila. 

Essa custa R$ 11,90.

Era uma vez...

E fico imaginando a minha vida se eu fosse morar em um sobradinho de vila, que teria uma sala no térreo com um tapete felpudo, um sofá aconchegante e convidativo e uma estante até o teto cheia de livros, DVDs, CDs e objetos de arte, sobre os quais eu saberia a origem, o conceito e o por quê. E nós teríamos uma cozinha americana - sim, nós, porque haveria ali um homem grande, magro e com os músculos definidos, que caminharia pelos nossos tapetes felpudos e pisos de madeira descalço, sem camisa, e com uma daquelas calças de pijama meio larguinhas, ou com uma cueca boxer. E ele iria gostar de cozinhar comigo numa sexta-feira a noite, usando todos os nossos apetrechos cromados, picando um maço de cheiro-verde e colocando a massa na água borbulhante, enquanto tomamos um malbec. E estariamos ouvindo um bolero e depois Ella & Louis. Ah! Ainda bem que a moça que limpa a casa vem amanhã, assim não precisamos lavar os pratos (as panelas já estão limpas, porque eu não gosto de cozinhar na bagunça e vou lavando tudo depois de usar) e podemos começar a assistir um filme e fazer amor, e dormir abraçadinhos e quentinhos nos nossos lençóis brancos. E quando acordamos de manhã a mesa do café está posta com uma jarra de suco de laranja bem amarelo e pães fresquinhos e meu mamão com aveia e mel. Eu dou uma olhada na Folha e ele no Estadão, paro na Ilustrada e ele no Economia&Negócios, depois a gente troca e eu leio o Caderno 2. E já decidi o que vamos fazer no final de semana. Tem uma peça ótima em cartaz no Sesc Consolação, e um filme que quero muito ver. Mas vamos no Reserva Cultural, porque a gente pode tomar um café antes do filme. Então a programação ficou assim: a gente almoça no Masp e aproveita pra ver a exposição de fotos que ele quer. Caminhamos até a Fnac e ficamos olhando os livros e CDs até a hora do filme começar do outro lado da rua. Depois vamos para o Sesc. Vou ligar pro pessoal pra ver se querem assistir a peça ou se nos encontramos depois para tomar uma cerveja.


No domingo de manhã, vamos dar uma volta de bicicleta no Villa-Lobos e, depois, ao churrasco na casa dos pais dele. Uma soneca no sofá de casa no final da tarde e no começo da noite pedimos uma pizza e assistimos a mais alguns episódios daquela série em DVD... Durante a semana a mesma rotina: tem dia que ele chega tarde, tem dia que sou eu que chego. Como foi seu dia? E o novo projeto? Entrevistou aquele escritor? Computador, TV, livros, a viagem de férias, a viagem de trabalho. Vontade de tomar um café de madrugada, vamos até a padaria? Hum, e aquela banana assada com canela e sorvete de creme? Hoje ele quer o frango com curry, que deixa a casa com um cheiro de oriente e sexo. Jazz, jazz, jazz. Dançar junto na cozinha e um pouco de Rolling Stones de manhã para acordar. Essa semana foi muito corrida, você não me deixou dormir nenhum dia antes das 3h. Avisa sua mãe pra não ligar no sábado de manhã porque quero dormir até acordar. Depois a gente pode almoçar na Vila e passar a tarde sentados em um bar, dando risada e pensando no que temos pra fazer na semana que vem. E começa tudo de novo...

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Como gastar seus últimos R$ 60 reais

Compre um merlot, um gouda e um Dostoiévski e volte pra casa lendo no ônibus para comemorar o final de mais um dia feliz.

domingo, 27 de julho de 2008

Poema em linha reta

Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,

Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,

Indesculpavelmente sujo,

Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,

Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,

Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,

Que tenho sofrido enxovalhos e calado,

Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,

Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,

Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,

Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado

Para fora da possibilidade do soco;

Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,

Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,

Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida…


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Outro Santiago

"É preciso ser jovem e já  saber, ao invés de estar velho com um currículo cheio  de bons exemplos. Mude sua vida, acorde cedo, vá  correr um pouco. Jovem e cheio de vida, a energia  que você desprender do corpo irá voltar de alguma forma e os ciclos, mesmo que se repitam, não acontecem sempre da mesma forma. Renove-se. Dance, mude o ritmo, escolha valsa em vez do batidão em que você é obrigado a entrar todos os dias. Decida-se. Seus sonhos estão no agora e não no  depois; depois, você não os realizará e antes, bem, antes só dá para lembrar. Decida-se por lembrar das escolhas ao invés de lembrar dos sonhos que você poderia ter sonhado. Misteriosos, às vezes, eles vêm e vão também de forma infortunia. Nem pense em lamentá-los, melhor, não pense. Ou você age agora, ou depois você sentará em uma cadeira, sentirá o vento em seu rosto e poderá pensar o quanto você estaria diferente se acaso seguisse seus desejos. Mesmo sabendo que você é feliz, já que podemos ser felizes de muitas formas, você terá o desprazer de possuir a memória, que o lembrará de todos os sonhos de que você abriu mão para estar aqui. A diferença é essa, todos podemos ser felizes, mas se seguirmos nossos sonhos, nós não teremos a recordação de não tê-los seguido. A felicidade não lembra da tristeza, mas nossa tristeza poderá apagar o brilho da nossa felicidade e contaminar nosso coração que anseia, sempre, pelas razões humanas inexplicáveis de ser feliz ganhando dinheiro. Não é o dinheiro, o amor, o sexo ou a TV a cabo. Se acaso pudesse lhe contaria, mas não posso dizer sobre o que não fui, posso apenas me ressentir e tentar fazer com que você não cometa os mesmo erros que eu, Mark. Siga o seu sonho, e, por favor, mude sua vida. Está muito pacata, garoto."

(Mark Marine, em Velho Santiago)

Em homenagem a um amigo recente

Chanson D'Automne

(Paul Verlaine)


Les sanglots longs

Des violons

De l'automne

Blessent mon coeur

D'une langueur

Monotone.


Tout suffocant

Et blême, quand

Sonne l'heure,

Je me souviens

Des jours anciens

Et je pleure.


Et je m'en vais

Au vent mauvais

Qui m'emporte

Deçà, delà,

Pareil à la

Feuille morte.

sábado, 26 de julho de 2008

O documentário e a ficção


Encontros Bravo! Fnac

Os cineatas João Moreira Salles e Bruno Barreto são os convidados do debate de lançamento da edição de agosto de BRAVO!, que acontece no dia 14/8, às 20h, na Livraria Fnac de Pinheiros. Com mediação do repórter André Nigri, autor da reportagem de capa Eu vi um Brasil no Cinema, o debate pretende discutir a influência da linguagem e dos temas do documentário e o cinema de ficção feito hoje no Brasil.


Quando: Quinta-feira, 14/8, às 20h
Onde: Fnac Pinheiros - Praça dos Omaguás, 34 - São Paulo - Tel 11 3579-2000
Quanto: Grátis 

Mendigos Culturais by Santiago

É muito bom quando alguém com quem a gente já simpatiza nos surpreende. O Santiago Nazarian era pra mim só o rapaz fofo que trabalhou comigo na SPFW, mas nunca trocamos muitas palavras. Ele era colunista do Journal, chegava na redação, escrevia seu texto, socializava com o pessoal e ia embora. Eu gostava das suas colunas, que tinham um olhar irônico e estimulante. A gente estava ali, no meio da semana de moda, no meio do pessoal mais descolado, e suas palavras se encaixavam perfeitamente no modelo do jornal, com um tom engraçadinho e palatável, mas riam de tudo aquilo, riam da possivelmente infrutífera busca de um sentido naquilo tudo e tentavam fazer as pessoas pensarem. Lembro de um texto que ele escreveu, durante a temporada de janeiro da SPFW, em tom auto-biográfico, dizendo que vivia naquele mundo de glamour, sofisticação e sonho, e quando chegava em casa encontrava a geladeira vazia e um bilhete da faxineira cobrando o salário atrasado há tempos. Soco no estômago e nó na garganta. Na última edição - a coluna chamava Última Fila e a proposta dele era olhar para as pessoas que não são alvo dos flashes -, ele perguntava se não era melhor cada um procurar a sua própria Gisele Bundchen, do que ficar na multidão seguidora da modelo inatingível, mas que não passa de uma pessoa comum.

Depois, descobri que ele é um grande escritor, um dos melhores de sua geração. E tem um blog muito bacana, divertido e pensante - não desses que só tiram sarro da roupa e da forma física de celebridades, e o dono ainda sai na Vejinha (tantas coisas e pessoas mais legais pra divulgarem)... Mas isso tem um pouco a ver com o que o Santiago escreveu no blog dele há alguns dias, um post muito legal, mais uma vez trazendo a gente pra realidade. Chama Mendigos culturais. Segue um trechinho para dar uma idéia:

"Todos os artistas que têm de implorar por um pouco de atenção, por um pouco de reconhecimento, chamar o público como se estivesse pedindo um favor, pedindo desculpas, entregando sua obra de graça.

(...) Nem coloco em questão o fato dos Mendigos Culturais não conseguirem viver só de arte. Esse não é o ponto. A questão é ter de mendigar um público. Obrigar os amigos, a família a assistir sua peça, deixar convite de graça, forçar a comprar o livro... Por isso tenho cada vez mais resistência a participar de eventos literários, fazer noites de autógrafos... (Festa de aniversário já não faço há anos, pior que mendigar público é mendigar amizade.)"

Leia o resto lá: Amor & Hemácias

Meus sinceros votos de paz profunda...

Eu não sou das pessoas mais otimistas, acho que já deu pra perceber. Esse negócio de Pollyana, de tentar ver sempre o lado positivo das coisas, mesmo que seja a maior desgraça e eu esteja me afogando na lama, é mais uma atitude conformista do que de otimismo. O que não tem remédio, remediado está...


Mas otimismo mesmo, acreditar que tudo vai ser melhor um dia, isso não. Eu não acredito que as coisas vão melhorar, que a humanidade vai ser mais solidária e igualitária, que a violência vai acabar, que alguém um dia vai pensar mais no próximo do que em si mesmo. A gente ouve todo mundo falando: a violéncia hoje está demais, a fome no mundo está demais, a corrupção hoje está demais. Tudo bem, todas as afirmações estão corretas, a não ser por um detalhe: o tempo presente. 


Gente, a violência, a fome, a corrupção, as guerras, as diferenças sociais SEMPRE existiram, não são de HOJE. É só olhar pra trás, pro século passado, pra Idade Média, pra Grécia Antiga, pra época de Jesus, pras tribos indígenas, pra Idade da Pedra... O homem é individualista por natureza e sempre vai querer puxar a brasa pra sua sardinha. Sim, existe o bem, sim. Todo mundo é solícito, mas só até o ponto em que isso não afete os interesses pessoais.


Por que você acha que o homem se organizou no começo dos tempos para viver em comunidade? Por que queria ser amigo da galera? Dez pessoas juntas se defendem com muito mais facilidade de um animal selvagem, conseguem caçar mais bichos e coletar mais alimentos, conseguem proteger e cuidar melhor dos filhotes. A partir do momento em que essas dez pessoas vêem que outro grupo de dez pessoas começa a caçar os bichos, colher as frutas e procurar as fêmeas (ou os machos...) na área que antes era só delas, começam as guerras. Isso sem contar os conflitos porque um dos membros do grupo guardou a fruta (ou a fêmea) mais bonita e gostosa só pra si.


Quantas milhares de gerações já passaram pela Terra? E você lembra de alguma época em que o homem viveu em perfeita harmonia e paz?


Não quero desanimar ninguém. Quem me conhece sabe que eu não sou uma pessoa mau-humorada e de mal com a vida. Mas temos que encarar os fatos e, já que é assim, relaxa e goza.


Ps.: Esse era pra ser um post positivo, alegre, feliz e lexotanico, a pedidos e para falar da nova revista onde eu comecei a trabalhar, cujo tema é bem-estar e sustentabilidade. Durante o horário de expediente tudo bem, transmito minhas vibrações mais positivas e meus sinceros votos de paz profunda, mas aqui.... nããõooo... eu não consigo, eu não consigo, eu não consigo.... sorry.... pra que apaziguar se a gente pode atormentar?