terça-feira, 3 de junho de 2008

Trabalhar é amargo mas os frutos são doces...

Uma das qualidades que eu mais admiro nas pessoas é a capacidade de sentir paixão e de se deixar dominar por ela. Pode ser por outra pessoa, por uma causa, por uma idéia, por um trabalho. Quero falar aqui de trabalho. Alguém apaixonado se dedica de corpo e alma ao que faz e, por mais que adversidades apareçam, não perde a esperança, procura soluções e tenta fazer sempre melhor. Para ele, cada dia é uma descoberta, um motivo de alegria para viver.
Sei que é difícil encontrar pessoas assim, que realmente trabalhem por prazer. Na época em que prestei vestibular, ouvia as pessoas falando: “O mais importante é escolher uma profissão que você goste, porque se você trabalhar com amor o retorno vem depois”. E são as pessoas que têm a coragem de fazer escolhas pensando assim que eu admiro. Na verdade, a recompensa que vem depois nem sempre é financeira. O maior retorno pra quem faz o que ama é o próprio ato de poder fazer o que ama todos os dias
Pra essas pessoas não existe domingo deprimente e nem segunda-feira chata. Elas não começam a contar os dias pra chegada da sexta-feira logo na segunda. Não contam os minutos que faltam pra hora de almoço e nem pra hora de ir embora. Simplesmente porque estão sentindo prazer no que fazem. O trabalho que fazem as satisfaz e não é feito com esforço, nem por obrigação.
Tudo bem que é ótimo ver o saldo da conta com vários zeros no final do mês e nem todas as profissões rendem salários polpudos. Mas será que o tédio e a raiva que se passa todos os dias, pelo menos por oito horas, valem isso?
Durante a minha vida, que nem é tão longa assim, conheci algumas pessoas apaixonadas pelo trabalho. Lembro muito dos professores (já que até agora mais de 80% da minha vida foram passadas em salas de aula). Os que transmitiam esse amor pelo que estavam falando tinham muito mais credibilidade e foram os que mais conseguiram me ensinar, os que conseguiram deixar um pouquinho do que queriam dizer em mim e dos quais não esqueço até hoje.
Depois, no trabalho, vi que as pessoas apaixonadas pelo que faziam eram as que mais conseguiam incentivar suas equipes e fazê-las acreditar em um objetivo. Alguém que não acredita do fundo do coração no que está dizendo, fala, fala, fala, mas não consegue contagiar ninguém com nenhuma idéia. Ao contrário, por mais que tente, acaba deixando transparecer sua indiferença, má vontade ou até raiva por ter que fazer ou falar aquilo.
Todo mundo tem alguma paixão na vida. Algo que queira muito fazer e que proporcione um grande prazer. E com certeza é isso que a pessoa vai fazer melhor; melhor do que tudo o que já fez e melhor do que outros que fazem aquilo sem tanto amor. Pode ser apertar parafuso, arar a terra, concertar computador, fazer discurso, calcular, cuidar de criança ou pintar quadros. Mas a maioria das pessoas não acredita nelas próprias, prefere achar mais importante o que o outro pensa ou fala e tem medo de se arriscar. Afinal, o ser humano tende a buscar a segurança. Principalmente hoje, nessa “selva capitalista”, onde a vida não é fácil pra ninguém. Mas acredito que acaba valendo a pena e a recompensa vem.
Hoje, li na edição de junho da TPM uma entrevista muito bacana com a Nina Becker, estilista, cantora e vocalista da Orquestra Imperial, em que ela fala sobre isso:
“Descobri que podia ter um trabalho que só me desse prazer. Ainda fico passada quando penso , ´cara, vivo de tocar´”. (...) A maior novidade na vida dela é ter começado a compor. “Eu tinha a maior travação com isso. Achava que era só para pessoas geniais. Mas uma hora pensei: também posso fazer, foda-se”.
Tudo bem que ela tinha a casa da mãe para morar e não passou fome. Mas, como define o dicionário Huaiss, paixão é “o sentimento, gosto ou amor intensos a ponto de ofuscar a razão; grande entusiasmo por alguma coisa; atividade, hábito ou vício dominador”. Maior que a razão, ela nos impulsiona a encarar e ultrapassar qualquer desafio e perto dela as maiores dificuldades parecem pequenas.Bom, acho que cada um faz suas escolhas. Tem gente que prefere passar a vida fazendo algo que não suporta enquanto conta os dias pra chegada das férias e as moedas para gastar depois da aposentadoria. Eu prefiro os que não vêem os dias passarem e sofrem por pensar na possibilidade de não poderem fazer o que amam até o último dia de suas vidas. Espero que consiga ser um deles e que um dia alguém olhe pra mim e diga: “essa aí ama o que faz”.

3 comentários:

Joo disse...

Minha mais sincera invejinha (branca, claro) em relação a essas pessoas. Eu larguei uma carreira que, segundo todo mundo, ia me dar "dinheiro e tranquilidade" em prol de fazer o que eu gosto... mas ainda não consegui fazer o que eu gosto devido aos tais boletos bancários. Um dia quem sabe consigo. E quem sabe me torno um destes de quem você fala...

obrigada pela visita lá no blog!

Irajá do Campos disse...

Una de las pocas cosas que puedo asegurarte a ti y a otra persona es que amo lo que estudié así no sea millonaria y no me arrepiento, porque el dilema para un artista es, o produce el 100% que es lo ideal, o verse enfrentado a trabajar una parte de su vida para sobrevivir y en la otra poder crear, sabiendo con sensatez que no todo lo que se haga vaya a ser realmente bueno; y otra cosa, la sociedad que está pensando que eres loco, vago o bohemio. Esta carrera me ha dado mucho, sin embargo, hay otros amores y pasiones que siembran personas en uno, gente muy especial y que de alguna forma admiras, por ejemplo, a lo largo de mi vida he sido lectora, pero hace unos años conocí a alguien que sembró en mi una gran pasión por la literatura y desde ese momento no he dejado de leer, también te puedo decir que la literatura me ha salvado y ayudado en muchos momentos.

Érika disse...

Querida, a vida me fez descobrir que sou "lifelover". Amo a vida e amo cada minuto que tenho para ler um livro diferente, estudar um idioma, ver um filme clássico, escrever, dançar. Compartilhar experiências com alunos é, sem dúvidas, uma grande paixão. Ouso imaginar que essa paixão que você descreve não é a do workaholic segundo a lógica capitalista. Aquele que não sabe o que fazer nas férias, nos domingos, e sente uma saudade desmedida do relógio de ponto. Isso seria paixão ou fuga da vida? Amar a vida seria preguiça ou descoberta de si mesmo? Beijos e continue escrevendo, sempre!