segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Vê se pára de pensar bobagem!


Dá pra confundir o amor com o ódio?
Essa é a pergunta que a personagem da Maria Manoela faz pro seu agente, representado pelo Nilton Bicudo, no excelente espetáculo O Natimorto - Um Musical Silencioso, do Lourenço Mutarelli, dirigido e adaptado pelo Mário Bortolotto, que assisti domingo.
Eles estão falando sobre cartas de tarô, e ele responde que sim, porque as figuras que representam ambos os sentimentos são muito parecidas.
Na peça, o cara propõe a ela que fiquem trancados num quarto de hotel, vivendo sozinhos para que se protejam do mundo e protejam um ao outro. Acho que isso tem a ver com o ódio que nasce do amor. Às vezes a gente ama tanto alguém que queria poder ter essa pessoa só pra gente, fechados e protegidos o tempo todo, mas como isso é impossível, a gente se sente impotente e passa a odiar o amor que sente. E a odiar a outra pessoa e a odiar a gente mesmo por sentir aquilo. Porque às vezes, o que a gente sente é mais forte do que a nossa vontade. Há algum tempo escrevi sobre um cara por quem estava apaixonada: "Eu o odiei quando percebi que estava me fazendo perder o controle." E essa sensação é pior quando a gente não é correspondido. 
Hoje eu tive um dia ruim. Fiquei pensando que a gente sempre cria expectativas sobre outras pessoas e nem sempre elas estão prontas para supri-las. Na verdade, acho que quase nunca as pessoas atingem nossas expectativas. Por que a gente quer que elas façam o que a gente faria, só que nessas horas a gente não vê que também não faria aquilo se estivesse no lugar delas, se é que já não estivemos. Quantas pessoas a gente já não decepcionou simplesmente por estar olhando pra outro lado no momento em que ela estava olhando pra gente?
Quando o agente propõe que eles se isolem do mundo, a cantora diz: mas não é egoismo da sua parte, já que minha voz é tão maravilhosa, privar as outras pessoas de ouvi-la? E então o cara se tranca e ela continua saindo, investindo na carreira e querendo mostrar sua voz para o mundo. Mas será que ela também não está sendo egoísta? Em vez de dar o melhor de si para alguém que queria protegê-la, prefere ter uma platéia cheia de gente para aplaudi-la.
Isso me fez pensar nessa obra do artista plástico Iran do Espírito Santo, chamada Buraco de Fechadura. Feito de metal, em formato convexo, esse buraco de fechadura reflete a própria imagem de quem olha para ele. Se todo mundo tivesse um desse em casa, talvez as pessoas sofressem menos. E, talvez, a melhor solução seja não esperar nada de ninguém, pelo menos não antes de olhar pro nosso buraco de fechadura.

Ps: O espetáculo fica em cartaz até 2 de novembro, aos sábados e domingos, no Espaço dos Parlapatões. O texto do Mutarelli é excelente e a atuação do Nilton é sensacional. Imperdível mesmo. O mesmo texto também foi adaptado para o cinema, com a Simone Spoladori e o próprio Mutarelli atuando, mas não sei quando estréia. Aqui, só pra dar um gostinho.





Um comentário:

Priscila disse...

Peça linda!
Queria ter escrito... rsrs
Queria dizer mais, mas não consigo. Vou tentar mais tarde. Mas gostei da parte do amor egoísta.
Beijos,