terça-feira, 30 de setembro de 2008

Cão sem dono



Acabei de assistir Cão sem dono, dirigido pelo Beto Brant e pelo Renato Ciasca. Já queria assistir há algum tempo e hoje descobri sem querer que tinha conseguido baixar da internet e ele estava aqui guardado no meu computador, como que esperando a hora certa pra ser assistido. 
Há pouco tempo, li o livro que inspirou o filme, Até o dia em que o cão morreu, do Daniel Galera. Esses escritores gaúchos são muito bons (acho que já falei alguma coisa aqui sobre o Reginaldo Pujol Filho, que escreveu Azar do personagem, um excelente livro de contos). O Daniel já é reconhecido como um dos melhores escritores de sua geração, um dos que melhor retrata o pensamento e o modo de vida dos jovens de 20 e poucos a 30 anos. Daqui há cinqüenta anos, vão ler um livro dele e saber exatamente como a gente era, como vivia e quais eram as nossas expectativas. Ou falta de expectativas. É sobre isso que ele fala nesse livro. Um cara formado em letras, que se diz tradutor, mas não trabalha, mora sozinho em um apartamento sem móveis, é sustentado pelo pai e não tem a menor perspectiva de mudar de vida. Ele diz que seguiu sua vida na inércia – escola, cursinho, faculdade, trabalho – só que essa parte era mais difícil do que ele imaginava. Ou ele simplesmente não tinha vontade nem ânimo algum para continuar. A vidinha solitária, fechado no apartamento, era suficiente pra ele. Até que aparece a modelo Marcela, cheia de sonhos e expectativas, e ele subestima tudo o que ela deseja e tudo o que ela é e quer ser. Inclusive o que ela sente por ele. A indiferença dele perante a vida é a mesma que ele tem perante ela. Assim como o cão, que o segue até sua casa por espontânea vontade e ele o aceita, Marcela é tratada como se sua presença ali não fizesse a menor diferença. Até que as coisas mudam, muda a situação e ele também muda.
No filme senti falta de uma certa raiva de tudo isso que Marcela parece ter no livro. Ela é muito mais passiva no cinema. Por outro lado, o sofrimento do cara quando sente que pode perdê-la é muito mais presente no filme, e isso eu gostei. A gente só da valor depois que perde mesmo, né?
Mas, voltando a falta de perspectivas, acho que a gente sempre viveu essa inércia e sempre foi assim. Todo mundo já tem o seu destino traçado desde quando nasce e esse destino vai sendo incutido nas nossas cabecinhas desde crianças. As perspectivas que a gente tem não são realmente nossas, elas nos foram contadas em historinhas ao longo da vida e acabamos por absorvê-las. Será que existe alguém que seja realmente livre? Que tenha feito suas próprias escolhas, mesmo depois de passar por toda essa lavagem cerebral? Acho que existe sim, mas com certeza essa pessoa é considerada louca ou anormal.
Pra que enfrentar tudo isso se eu posso ficar trancado no meu apartamento vendo a vida passar da janela? Ou por que ficar vendo a vida passar da janela se eu posso ir lá e fazer alguma coisa acontecer do meu jeito? A escolha é minha. Será?

Um comentário:

Priscila Nicolielo disse...

Um dos únicos personagens masculinos apaixonantes do cinema. Talvez o único. rs