domingo, 5 de outubro de 2008

Não chore por mim

Há algum tempo eu decidi que não iria chorar por ninguém nunca mais. Não iria mais sofrer por gostar de alguém. Acho que o amor tem que ser uma coisa boa e, à partir do momento que passa a não fazer bem, é melhor esquecer. 
Mas isso, de não chorar, não significa que eu decidi me proteger e não amar, ou que eu me recuse a sentir alguma coisa ou a arriscar. Na semana passada, dois amigos meus estavam conversando e um deles falou: "Eu já conheci alguns namorados da Vivian, todos muito bacanas, e o que eu acho legal é que ela sempre ama muito a pessoa. Pode ser que dure duas semanas, mas a gente percebe que naquele momento o que ela sente é verdadeiro, é real." Eu gostei de ouvir isso, porque realmente, quando eu estou com alguém, aquela pessoa passa a ser o motivo da minha vida. Nem que seja por uma hora, um dia, ou por anos. Já quebrei a cara várias vezes por isso, mas não me arrependo de nada. Adoro ser assim, não fico me resguardando, vivo a situação intensamente, me jogo de cabeça, e faço com que cada minuto em que eu estive com aquela pessoa seja valioso. Porque depois, se acabar, é a alegria e os momentos bons que tivemos que vão ajudar a me confortar. Se tem uma coisa que não suporto é ficar fazendo joguinho, do tipo: ah, não vou ligar porque ele que tem que me ligar primeiro, ou não vou sair com ele hoje porque ele não me ligou ontem ou porque vai achar que eu estou à disposição. Se eu estou com vontade, ligo, falo. Porque ninguém tem bola de cristal.
Mas esses dias uma imagem veio a minha cabeça. Imaginei que a cada decepção que a gente tem com o amor é feito um curativo no coração. Ele é enfaixado com uma espécie de tira de gaze. O natural seria tirar o curativo depois que tudo já estivesse cicatrizado. Mas tem gente que não consegue tirar nunca esse curativo e, a cada tristeza causada pelo amor, vai colocando mais uma faixa por cima. E, então, vai se formando uma camada tão espessa e dura, que fica cada vez mais difícil conseguir penetrar. Eu tenho medo que isso aconteça comigo um dia, porque geralmente a gente não percebe quando acontece. E aí a pessoa vai ficando amarga, triste, sem confiança nos outros e incapaz de se entregar.
Por falar em entrega, eu acho que isso é que é a essência do amor. Na quinta-feira, perguntei pro meu amigo Danny Boy qual era o segredo do amor, e ele me disse, entre outras coisas, que é quando alguém fala pro outro "eu sou seu". E esse eu sou seu significa essa entrega. Não existe cobrança, porque o que se sente é maior do que qualquer outra coisa que se possa esperar em troca. O amor de verdade é generoso, mas não é compreensivo. Porque compreensão exige um certo esforço e o amor verdadeiro não precisa de esforço, ele simplesmente aceita, existe e é. 
E acho que foi por isso que eu decidi não chorar mais. Porque se o que eu sinto me faz sofrer é porque eu estou esperando alguma coisa da outra pessoa que ela não está me dando ou não pode me dar. E se eu quero algo que ela não tem ou que ela não me dá por livre e espontânea vontade, não existe amor em algum dos lados e isso faz não valer a pena. Afinal, ninguém pode obrigar, forçar ou ensinar ninguém a amar. Porque o amor simplesmente é, ou não é.
Só pra dar um exemplo, esses dias assisti ao filme Os Desafinados. Uma história de amor, linda. As pessoas com quem conversei acharam um absurdo quando falei isso, talvez eu esteja muito errada mesmo, ou eu seja muito trouxa, mas o que achei lindo no filme é a história da Luiza (Alessandra Negrini), que é a mulher do Joaquim (Rodrigo Santoro). Ele é músico e, quando vai tocar com a banda nos EUA, deixa a mulher grávida no Brasil. Lá, ele se apaixona pela cantora Glória (Claudia Abreu) e eles começam a ter um caso. Só que o cara sofre, porque ele ama a mulher. Como assim? Ué, ele mesmo diz: "Eu amo a Luiza, mas eu estou apaixonado pela Glória." Acontece... A Luiza também ama muito o Joaquim, mas quando a banda volta pro Brasil ela percebe que rola alguma coisa entre ele e a cantora. Em uma cena eles estão gravando num estúdio, a Luiza está assistindo do lado de fora e vê o clima que rola entre o marido e a outra. E a Glória está cantando uma música que fala "Por isso mente pra mim, vai ser bem melhor saber que mentiu pra me salvar". Depois, o sofrimento do Joaquim com a situação aumenta, ele não quer mais enganar a mulher e vai contar tudo pra ela. Só que ela já sabe, e antes dele começar a falar ela interrompe e diz: eu te amo. E isso quer dizer: não precisa me falar nada, eu já sei de tudo, mas o que eu sinto por você é maior e mais importante que isso e eu vou continuar aqui do seu lado não importa o que aconteça. 
Tudo bem, traição é algo muito complicado, que envolve respeito, confiança, e muitas outras coisas. Não estou defendendo. Mas esse exemplo foi só pra dizer que o amor amor mesmo, supera qualquer coisa, sem cobranças. Pode não ser uma traição, pode ser algo que seria considerado um defeito, uma atitude que aos olhos dos outros, ou até aos nossos mesmos, se tomada por outra pessoa ou em outro momento, não seja considerada boa ou correta - desde apertar o tubo de pasta de dente no meio ou não levantar o assento da privada até sair, encher a cara e voltar bêbado de madrugada, sei lá. E se essa aceitação não acontece naturalmente, sem ser vista como um esforço, não vale a pena insistir, nem chorar. 
Mas se acontece, tem suas consequências e uma delas é a sinceridade. Se existe amor entre duas pessoas, existe confiança, porque já que existe aceitação mutua, não há necessidade de mentir. Já ouvi muito das minhas amigas e eu mesma já falei a frase "eu faço tudo por ele mas ele não enxerga isso e não faz nada por mim". Hoje eu acho que quando se ama, tudo o que se faz pelo outro não é considerado um sacrifício e nem é feito esperando uma retribuição ou reconhecimento.
Pode parecer tudo besteira e teoria, mas isso acontece e existe mesmo. Tá, eu sei que não é fácil... mas a gente tem que acreditar, dar chance pra acontecer e saber reconhecer... E parar de chorar quando não vale a pena.
  

Um comentário:

Priscila disse...

Esse texto! Foi esse que comecei a ler e não consegui terminar...
o duro é perceber quando não vale mais a pena...
Lembrei de uma música do China, gravada pelo Mombojó, "Estático", conhece?
beijos,