terça-feira, 28 de outubro de 2008

Amor, vontade e respeito

Ontem fui assistir a entrega do Prêmio Bravo! Prime de Cultura, na Sala São Paulo, que homenageia os melhores artistas e produtos culturais do ano, em várias categorias - literatura, artes plásticas, cinema, teatro, dança, música popular, música erudita - e ainda elege a instituição com a melhor programação cultural e a personalidade artística do ano.

Tudo muito chique, num lugar maravilhoso, um coquetel delicioso, proseco e um monte de gente desconhecida. Pedi socorro pro João Gabriel, que estava louco tendo que dar atenção a todos na festa, e ele me apresentou uma menina que começou a contar na roda com dois caras sobre a fantasia de vale-refeição que usou em uma festa e que era um vestido tomara que caia curtíssimo. Engraçado, mas no patience. Mas depois ele me apresentou a Nina Becker e um pessoal com uma conversa mais interessante. ;)

A premiação foi linda e emocionante. Lázaro Ramos foi o anfitrião e Nina e Catatau apresentaram músicas com arranjos que misturavam o pop e o erudito, seguindo o conceito da revista de que todo tipo de cultura deve ser disseminada e de que é possível que convivam lado a lado, nas páginas e nos palcos.

Gostei muito do prêmio de melhor espetáculo ter ido para Não Sobre o Amor, do Felipe Hirsch, que eu assisti e achei maravilhoso. E foi lindo ver a Arieta grávida indo receber o prêmio.

O bailarino Ivaldo Bertazzo, que entregou o prêmio de melhor espetáculo de dança, contou uma história que me tocou, também. Disse que um coreógrafo passava as noites em claro, aflito, pensando que não poderia criar mais nada, pois todos os movimentos de dança já tinham sido inventados. Então, foi abrir a garrafa de café e dali saiu um gênio, que disse que os movimentos são infinitos e sempre é possível criar algo novo. E assim ele retomou a coragem e a criatividade para criar. Acho que todas as artes são assim, infinitas e inesgotáveis, pois cada pessoa é única e cada artista tem um olhar diferente sobre o mundo. E é nessa individualidade, nas inúmeras e singulares formas de despertar algo em quem vê, é que está a beleza da arte.

O Wagner Moura, que hoje é visto como celebridade, mostrou em seu discurso de agradecimento pelo prêmio de artista Prime do ano, que é realmente um artista e não deixou de ser. Emocionado, agradeceu aos atores que dignificam a profissão, citando Paulo Autran, Raul Cortez, Fernando Torres, Derci Golçalves, mas sem esquecer dos artistas de teatro de rua, de teatro infantil, dos que ficam esperando para fazer testes de comercial, que ralam para conseguires sobreviver da arte que amam, e aos que estão no Retiro dos Artistas.

Também foi emocionante ver o violoncelista Dimos Goudaroulis receber o prêmio de melhor CD de música erudita. Ele disse que não esperava, pois é relativamente jovem (tem 38 anos), estava concorrendo com artistas mais experientes que admirava muito e gravou o CD meio que de improviso, na casa de um amigo produtor. Ele agradeceu aos seus professores, citando o nome de todos, demonstrando reconhecimento e gratidão. Eu pouco conheço de música erudita e não ouvi nenhum dos CDs que concorreram, mas tenho certeza de que o merecimento de Goudaroulis vem justamente do respeito e do amor que pareceu ter pelo que faz. Mesmo que gravado em três dias, como ele disse, o sentimento e a vontade de fazer que ele deve ter colocado nesse disco, valem por toda uma eternidade.

Foi uma honra poder me sentir entre pessoas que ainda acreditam que é possível fazer arte de forma respeitosa e séria, mesmo com tantas dificuldades e mesmo com a desvalorização que têm que enfrentar. Eu tenho convivido com artistas e vejo que não é nada, nada fácil. Acho muito triste ver que a maioria das pessoas vê a arte como algo supérfluo e de segundo plano, como se fosse um mero entretenimento. E que valorizam mais as imagens do que as idéias. Tentar mostrar o contrário é quase sempre dar soco em ponta de faca, mas ontem vi que ainda tem gente que não desiste, acredita e trabalha pra isso e senti o significado das palavras amor, vontade e respeito.

Ps: Tudo bem que o
Minczuk fez um lindo trabalho na OSB e já sofreu muito com polêmicas e historinhas, pelo que sei. Mas ainda acho que a personalidade do ano tinha que ser o Niemeyer, pois foi ele que nos ensinou que "A data não é importante. A idade não é importante. O tempo não é importante. A arquitetura não é importante. O que nós criamos não é importante. Somos muito insignificantes. O que é importante é ser tranqüilo e otimista." ;) Pra quem não sabia, essa frase sábia que eu vivo repetindo, é dele. Ah, também protesto pelo Santiago (o filme mais lindo do mundo) não ter sido escolhido como melhor filme no lugar de Tropa de Elite...

Estes foram os ganhadores:

Melhor exposição: Vik Muniz, com a obra The Beautiful Earth.
Melhor espetáculo: Não Sobre o Amor, dirigida por Felipe Hirsch.
Melhor livro: O Filho Eterno, de Cristovão Tezza.
Melhor espetáculo: Vi-Vidas, de Sônia Mota.
Melhor filme nacional: Tropa de Elite, de José Padilha.
Melhor CD erudito: CD Bach - 3 Suítes para Violoncelo Solo, de Dimos Goudaroulis.
Melhor CD popular: Conecta, de Marcos Valle.
Melhor show: Obra em Progresso, de Caetano Veloso.
Personalidade cultural do ano: Roberto Minczuk, pela revitalização da Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB).
Melhor programação cultural: Pinacoteca do Estado de São Paulo.
Artista Prime do ano: Wagner Moura, pelas atuações na novela Paraíso Tropical, como Olavo, e no filme Tropa de Elite, como Capitão Nascimento.

3 comentários:

Joao Gabriel disse...

Oi, Vivian. Obrigado por ter ido e desculpa por não ter te dado mais atenção -- tava meio enlouquecido mesmo com o montão de gente lá, mais do que esperávamos, bjs!

Pollyana Barbarella disse...

Eu é que agradeço novamente pelo convite!
Beijos

Irajá do Campos disse...

oi vivi, eu houvera desejado muito estar nesses premios, mas que bom que você foi