domingo, 1 de junho de 2008

Ode aos gatos

Artur da Távola


Nada é mais incômodo para a arrogância humana que o silencioso bastar-se dos gatos. O só pedir a quem amam. O só amar a quem os merece. O homem quer o bicho espojado, submisso, cheio de súplica, temor, reverência, obediência. O gato não satisfaz as necessidades doentias de amor. Só as saudáveis.


Já viu gato amestrado, de chapeuzinho ridículo, obedecendo às ordens de um pilantra que vive às custas dele? Não! Até o bondoso elefante veste saiote e dança valsa no circo. O leal cachorro no fundo compreende as agruras do dono e faz a gentileza de ganhar a vida por ele. O leão e o tigre se amesquinham na jaula. Gato não. Só aceita relação de independência e afeto. E como não cede ao homem, mesmo quando dele dependente, é chamado de traiçoeiro, egoísta, safado, espertalhão ou falso.


“Falso”, porque não aceita a nossa falsidade e só admite afeto com troca e respeito pela individualidade. O gato não gosta de alguém porque precisa gostar para se sentir melhor. Ele gosta pelo amor que lhe é próprio, que é dele e o dá se quiser.

 

O gato devolve ao homem a exata medida da relação que dele parte. Sábio, é esperto. O gato é zen. O gato é Tao. Conhece o segredo da não-ação que não é inação. Nada pede a quem não o quer. Exigente com quem o ama, mas só depois de muito se certificar. Não pede amor, mas se lhe dá, então o exige.

 

O gato não pede amor. Nem dele depende. Mas, quando o sente, é capaz de amar muito. Discretamente, porém, sem derramar-se. O gato é um italiano educado na Inglaterra. Sente como um italiano, mas se comporta como um lorde inglês.

 

Quem não se relaciona bem com o próprio inconsciente não transa o gato. Ele aparece, então, como ameaça, porque representa a relação sempre precária do homem com o (próprio) mistério. O gato não se relaciona com a aparência do homem. Vê além, por dentro e avesso. Relaciona-se com a essência.

 

Se o gesto de carinho é medroso ou substitui inaceitáveis (mas existentes) impulsos secretos de agressão, o gato sabe. E se defende ao afago. A relação dele é com o que está oculto, guardado e nem nós queremos, sabemos ou podemos ver. Por isso, quando esboça um gesto de entrega, de subida no colo ou manifestação de afeto, é muito verdadeiro, impulso que não pode ser desdenhado. É um gesto de confiança que honra quem o recebe; significa um julgamento.

 

O homem não sabe ver o gato, mas o gato sabe ver o homem. Se há desarmonia real ou latente, o gato sente. Se há solidão, ele sabe e atenua como pode (enfrenta a própria solidão de maneira muito mais valente que nós).

 

Se há pessoas agressivas em torno ou carregadas de maus fluidos, eles se afastam. Nada dizem, não reclamam. Afastam-se. Quem não os sabe “ler” pensa que “eles não estão ali”, “saíram” ou “sei lá onde o gato se meteu”. Não é isso! É preciso compreender porque o gato não está ali. Presente ou ausente, ensina e manifesta algo. Perto ou longe, olhando ou fingindo não ver, está comunicando códigos que nem sempre (ou quase nunca) sabemos traduzir.

 

O gato vê mais, vê dentro e além de nós. Relaciona-se com fluidos, auras, fantasmas amigos e opressores. O gato é médium, bruxo, alquimista e parapsicólogo. É uma chance de meditação permanente ao nosso lado, a ensinar paciência, atenção, silêncio e mistério.

 

Monge, sim, refinado, silencioso, meditativo e sábio, a nos devolver as perguntas medrosas esperando que encontremos o caminho na sua busca, em vez de o querer preparado, já conhecido e trilhado. O gato sempre responde com uma nova questão, remetendo-nos à pesquisa permanente do real, à busca incessante, à certeza de que cada segundo contém a possibilidade de criatividade e novas inter-relações, infinitas, entre as coisas.

 

O gato é uma lição diária de afeto verdadeiro e fiel. Suas manifestações são íntimas e profundas. Exigem recolhimento, entrega, atenção. Desatentos não agradam os gatos. Bulhosos os irritam. Tudo o que precisa de promoção ou explicação os assusta. Ingratos os desgostam. Falastrões os entediam. O gato não quer explicação, quer afirmação. Vive do verdadeiro e não se ilude com aparências. Ninguém em toda a natureza, aprendeu a bastar-se (até na higiene) a si mesmo como o gato.

 

Lição de sono e de musculação, o gato nos ensina todas as posições de respiração e yoga. Ensina a dormir com entrega total e diluição no Cosmos. Ensina a espreguiçar-se com a massagem mais completa em todos os músculos, preparando-os para a ação imediata. Se os preparadores físicos aprendessem o aquecimento do gato, os jogadores reservas não levariam tanto tempo (quase quinze minutos) se aquecendo para entrar em campo. O gato sai do sono para o máximo de ação, tensão e elasticidade num segundo. Conhece o desempenho preciso e milimétrico de cada parte do seu corpo, ao qual ama e preserva como a um templo.

 

Lições de saúde sexual e sensualidade. Lição de envolvimento amoroso com dedicação integral de vários dias. Lição de organização familiar e de definição de espaço próprio e território pessoal. Lição de anatomia, equilíbrio, desempenho muscular. Lição de salto. Lição de silêncio. Lição de descanso. Lição de introversão. Lição de contato com o mistério, o escuro e a sombra. Lição de religiosidade sem ícones.


Lição de alimentação e requinte. Lição de bom gesto e senso de oportunidade. Lição de vida e elegância, a mais completa, diária, silenciosa, educada, sem cobranças, sem veemências ou exageros e incontinências.

O gato é um monge portátil sempre à disposição de quem o saiba perceber.

Bizarrice

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Sobre um filme que vi há algum tempo

Santiago, documentário de João Moreira Salles, é um dos filmes mais bonitos que já assisti. Tudo que li sobre ele depois de ter assistido, fala sobre como João mostra no filme a maneira como se constrói um documentário e de como ele mudou sua visão sobre isso desde quando captou as imagens do filme, há treze anos, até hoje. Apesar de isso estar bem claro na tela, não foi o que mais me chamou a atenção.


Bom, pra quem ainda não ouviu falar no filme, Santiago é sobre o mordomo argentino de mesmo nome, que trabalhou por trinta anos na mansão da família de João Moreira Salles, na Gávea. Um homem extremamente culto, que falava seis línguas e rezava em latim. Fascinado pela história da aristocracia, da nobreza e das dinastias que passaram pelo mundo, ele costumava ir a bibliotecas e fazer anotações, mas sem jamais deixar de fazer seus próprios comentários, conseguindo reunir trinta mil páginas com a história das famílias tiveram por séculos o poder nas mãos. Tudo belamente organizado em blocos de folhas idênticas, amarradas com um fitas vermelhas que ele mandava vir de Paris. Cada bloco trazia referências de quanto tempo ele levou para reunir as informações (algumas famílias foram estudadas por quase 50 anos), sobre as cidades onde estava quando fez a pesquisa e até comentários históricos sobre o que acontecia na época.


Apesar de João deixar claro que durante as filmagens manipulou o que Santiago diria, seus gestos e ações, mostrando-o como um personagem criado pelo diretor, a essência do mordomo permanece e pode ser percebida.


Apaixonado pelas artes e pela música, demonstrava extremo respeito pelos grandes artistas, a ponto de usar um fraque para tocar Beethoven ao piano enquanto todos estavam dormindo e não havia ninguém por perto para observar.


Mas o ponto mais profundo abordado, e que mais me emocionou, é a questão da memória. Santiago diz que tem uma ótima memória, não esquece as línguas que aprendeu na infância, mesmo não tendo com quem praticá-las. Recita poemas de cabeça e parece lembrar de cada um dos personagens sobre os quais escreveu e de cada momento vivido, desde sua infância com a avó ate às grandes recepções na mansão dos Moreira Salles.


Uma pessoa extremamente interessante que, no entanto, seria esquecida se não houvesse se transformado no tema do documentário, assim como todos os outros sobre os quais escreveu. Mesmo parte de famílias que determinaram os rumos do mundo, muitas daquelas pessoas foram perdidas no tempo e suas histórias de amor, guerra, traição, conquistas e desonras ficaram para trás.


O que fazer, então, para ser lembrado? Santiago pode ser um exemplo. Viveu com paixão, sentiu o mundo ao seu redor, tocou castanholas ao som de música clássica e suas mãos dançaram em um ritmo que parecia ser determinado por sensações que nasciam em sua alma.


Por outro lado, o diretor fala da sabedoria de saber ouvir o que o outro tem a dizer (trata da relação entre diretor e personagem em um documentário e da imposição da visão e das idéias do diretor). Ele próprio assume, envergonhado, que não teve essa habilidade ao fazer as filmagens e acabou tentando fazer com que Santiago incorporasse uma imagem que era a que Joãozinho tinha dele na infância, um personagem pré-construído. Perdeu a oportunidade de se aproximar da verdadeira pessoa por trás do mordomo.


É o que acontece quando deixamos de receber as idéias do outro com a mente e o coração abertos, presos à conceitos só nossos, que, orgulhosos, não temos coragem de deixar de lado.

Reply

... até hoje ninguém encontrou essas respostas. Nossa vida é assim, uma dúvida infinita. Se não fosse, não existiria busca, e sem a busca o que seria de nossos anseios, quais seriam nossas motivações?
Talvez as perguntas sejam o melhor refúgio, por mais que nos atormentem.

Jazz no parque



Domingo acontece a segunda edição do Telefônica Open Jazz, no Parque Villa-Lobos, com apresentação dos ganhadores do Grammy Macy Gray e Herbie Hancock. Uma ótima oportunidade para quem quer ouvir boa música, sem pagar nada, em um ambiente bucólico e rodeado por pessoas bonitas.
Digo isso pela minha experiência na primeira edição do evento, em novembro do ano passado, com show da Diana Krall. Foi uma manhã de domingo muito agradável, apesar do sol escaldante e da falta de sombras. Mas tudo bem, era verão, provavelmente neste final de semana o calor estará um pouco mais ameno.
O início dos shows está marcado para às 15h. Só para constar, os dois se apresentaram separadamente esta semana em São Paulo, com ingressos que chegavam a R$400,00.

Para saber mais, clique aqui. 
Para ouvir Herbie Hancock e Macy Gray

Telefônica Open Jazz 
Quando: domingo (1º de junho), a partir das 15h 
Onde: Parque Villa Lobos, Av. Prof. Fonseca Rodrigues, 1655, Pinheiros , São Paulo 
Quanto: grátis 


quarta-feira, 28 de maio de 2008

21h

Só para variar, esse é mais um post escrito na solidão da espera de uma amiga.
Mas hoje~não consigo escrever nada. Não porque me falte assunto ou porque me faltem idéias. Pelo contrário. Minha mente está fervilhando a ponto do meu corpo se sentir incapaz de suportar o peso dos pensamentos.
O que me falta neste momento é a capacidade para organizá-los. E nessa desorganização as idéias passam na minha frente, pairam leves como beija-flores e, velozs como eles, voam para longe antes que eu possa agarrá-las.
Eu podia escrever sobre como o romance Senhora, de José de Alencar, que li aos 15 anos, influenciou a minha concepção de amor e minha vivência do sentimento.
Poderia escrever sobre quais foram os maiores elogios que já recebi na vida, por mais que não parecessem elogios. Poderia escrever sobre como me emocionei ao ver o álbum montado por uma amiga, que relata sua vida e a formação de sua personalidade, influenciada pela religião, mas com conceitos próprios sobre tolerância e aceitação da individualidade, cheia de idéias próprias e independente, mas coerente com sua educação.
Ou sobre como outra amiga que está tão longe permanece presente a cada dia, mas mesmo assim me faz uma falta enorme, que chega a me levar às lágrimas. Ou ainda sobre um livro de cartas de Rilke, que estou lendo e reforçou minhas idéias polianicas de como a solidão, a tristeza e o sofrimento devem ser encarados comalegria, pois são os momentos que nos proporcionam maior oportunidade de crescimento e nos engrandecem.
Mas talvez nada disso seja tão relevante. Ou talvez o ambiente tumultuado em que estou e o pequeno espaço destas páginas de papel não sejam os mais adequados para desenvolver estas idéias.
Por isso, paro por aqui e espero...

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Eu tenho a força!

Eu odeio ser obrigada a perceber que o meu corpo me domina e é mais forte do que eu. Quando ele está saudável e de bom humor, tudo bem. Mas parece que às vezes quer mostrar essa força e eu me sinto impotente.

É o que está acontecendo agora... dor de garganta, um peso no ombro e uma moleza incomum. Vontade de melhorar e nada a fazer. Parece uma vingança do corpo por eu ter tentado provar que poderia conseguir dominá-lo. 

O maior desentendimento entre mim e meu corpo é a respeito do sono, de ter que dormir. Eu acho isso um desperdício de tempo. Poderia aproveitar para fazer tantas coisas... ler, ver um filme, escrever, sair, conversar com as pessoas... mas ele insiste em querer descansar. E ontem resolvi mostrar pra ele que poderia agir de acordo com as minhas convicções. Consegui vencer o sono, que geralmente me vence com facilidade e fui dormir bem tarde. Ele começou me punindo com um soluço insuportável. E hoje isso... 

Só me resta agora obedecê-lo e ir dormir cedo. Droga...

O que seria de mim sem meu moleskine?

Censurado...

Laila faz um apelo (ou um alerta) a todos

...menos a quem ela ama...


Por favor, não se apaixone por mim. E se me amar, não espere nada em troca. Eu não vou te corresponder. Eu posso até gostar da sua companhia. Gostar de conversar com você, te chamar para ir ao cinema, para ir ao teatro, para tomar uma cerveja ou um café. Mas não confunda as situações. Eu só estou interessada nas suas idéias, nos seus pensamentos, no alimento intelectual que você pode me proporcionar. Você me estimula intelectualmente e é só isso que eu quero, só isso que eu espero e só isso que posso oferecer.

Você não imagina o risco que corre se deixar transparecer que tem algum interesse por mim. Eu sou manipuladora e vou começar a usar isso a meu favor. Não, não tenho a intenção de machucar ninguém, mas isso é um instinto mais forte do que a minha razão. Eu sinto prazer em conquistar, em saber que sou admirada. Mas sentir o desejo por mim é a única coisa que quero. É uma via de mão única. Posso até dar a entender em algum momento que é reciproco, mas não é. Eu sou independente, individualista, não quero me envolver com ninguém, mas para alimentar essa minha segurança, preciso de pessoas como você, que vão me fazer sentir bem e especial. E não pense que só com você é assim, existem outros, já existiram outros... os que ficam, os que vem, os que vão, mas depois voltam.

Não quero que fique com uma má impressão de mim. Se estou te falando isso, é porque te quero bem. É um alerta, pois a situação foge ao meu controle, então é você que precisa se defender sozinho. Para isso, estou te dando as armas.

Eu não quero amor, não quero me sentir dependente e impotente diante de algo que vai ser mais forte que eu e me controlar. Eu gosto e preciso ter o controle da situação. Então, se você aceita essas condições, melhor para nós dois. 

Mas não tenha esperança de que pode me fazer mudar de opinião. Já tentaram fazer isso... É como na música Toxic Girl, do Kings of Convenience: "You're waiting in the shadows for a chance, because you believe at heart, that if you can, show to her what love is all about she'll change. She'll talk to you with no one else around, but only if you're able to entertain her, the moment conversation stops she's gone again".

Agora você já sabe, espero que entenda.


Laila

domingo, 25 de maio de 2008

Another life...

Eu queria ser o Lou Reed...

Eu vou!

É mesmo?

What philosophy do you follow?


You scored as a Existentialism

Your life is guided by the concept of Existentialism: You choose the meaning and purpose of your life.

“Man is condemned to be free; because once thrown into the world, he is responsible for everything he does.”
“It is up to you to give [life] a meaning.”
--Jean-Paul Sartre

“It is man's natural sickness to believe that he possesses the Truth.”
--Blaise Pascal

More info at
Arocoun's Wikipedia User Page...

Existentialism


100%

Strong Egoism


100%

Justice (Fairness)


95%

Hedonism


90%

Kantianism


90%

Utilitarianism


55%

Apathy


20%

Nihilism


15%

Divine Command


0%

Senhora dos Afogados


Para colocar na agenda, primeiro por ser Nélson Rodrigues e segundo por ser uma montagem do Antunes Filho.


Quando fui assistir, ouvi reclamações de quem estava comigo, de que a montagem tinha descaracterizado Nélson, que não tinha a cara de sua obra. O próprio Antunes contou que houve comentários de que faltou calor a montagem. 


Se o espectador espera encontrar algo parecido como a série global "A vida como ela é", com certeza vai se decepcionar também. O  erotismo explícito e a sensualidade apelativa não são levados ao palco do Sesc. Não é uma mera comédia de costumes, é cheia de camadas e significados.


Apesar da montagem não parecer com o que banalmente se costuma imaginar de Nélson Rodrigues, a essência dele continua ali. Adultério, incesto, relações familiares tumultuadas, desejos que são reprimidos pela sociedade, mas acabam sendo mais fortes e são realizados... Enfim, a essência humana, que é má e camuflada, mas, cedo ou tarde, se revela.


Antunes quase não usa cenografia em suas montagens, coloca no palco apenas elementos de cena essenciais à ação. Para ele, tão importante quanto o texto do autor e a atuação dos atores, deve ser o espaço deixado para a imaginação do espectador. É ela que preenche o palco e faz com que um espaço aparentemente vazio se transforme em um cenário completo e cheio de vida. Mas para isso, o espectador precisa estar aberto e disposto. A expectativa pré-definida o afasta do espetáculo. Para ver sem preconceitos e com a mente aberta.


Até 27 de julho no Teatro SESC Anchieta - Rua Dr. Vila Nova, 245 - Tel: 3234-3000

Sextas e sábados, às 21h. Domingos, às 19h - 90 minutos - R$ 5,00 a R$ 20,00

Bravo!

Confira a minha matéria publicada na Bravo! deste mês, sobre a dramaturga Silvia Gomez, que escreveu a peça "O Céu Cinco Minutos Antes da Tempestade", em cartaz até julho no Sesc Consolação. E não deixe de assistir a peça, que, conforme o próprio Antunes Filho definiu, é genial. E a Silvinha é uma fofa, super sensível e acredita no que faz. Foi ótimo poder fazer a minha primeira matéria a com pessoas tão especiais quanto ela, o Antunes e o Lenate. Uma honra para mim.
O mês já está acabando, mas ainda dá tempo de comprar a Bravo! nas bancas. A edição está maravilhosa, com o Ney Matogrosso em uma bela capa e em uma matéria sobre vencer o tempo, ilustrações lindas para falar de Moby Dick, o divertido e inteligente catálogo "Enciclopédia da vida terrestre" e um texto contagiante sobre a persistência de Glauber Rocha. Imperdîvel!



sábado, 24 de maio de 2008

Ridículo!!

Brasil se prepara para reforma ortográfica

DANIELA TÓFOLI
da
Folha de S.Paulo

O fim do trema está decretado desde dezembro do ano passado. Os dois pontos que ficam em cima da letra u sobrevivem no corredor da morte à espera de seus algozes. Enquanto isso, continuam fazendo dos desatentos suas vítimas, que se esquecem de colocá-los em palavras como freqüente e lingüiça e, assim, perdem pontos em provas e concursos.

O Brasil começa a se preparar para a mudança ortográfica que, além do trema, acaba com os acentos de vôo, lêem, heróico e muitos outros. A nova ortografia também altera as regras do hífen e incorpora ao alfabeto as letras k, w e y. As alterações foram discutidas entre os oito países que usam a língua portuguesa --uma população estimada hoje em 230 milhões-- e têm como objetivo aproximar essas culturas.

Não há um dia marcado para que as mudanças ocorram --especialistas estimam que seja necessário um período de dois anos para a sociedade se acostumar. Mas a previsão é que a modificação comece em 2008.

O Ministério da Educação prepara a próxima licitação dos livros didáticos, que deve ocorrer em dezembro, pedindo a nova ortografia. "Esse edital, para os livros que serão usados em 2009, deve ser fechado com as novas regras", afirma o assessor especial do MEC, Carlos Alberto Xavier.

É pela sala de aula que a mudança deve mesmo começar, afirma o embaixador Lauro Moreira, representante brasileiro na CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa). "Não tenho dúvida de que, quando a nova ortografia chegar às escolas, toda a sociedade se adequará. Levará um tempo para que as pessoas se acostumem com a nova grafia, como ocorreu com a reforma ortográfica de 1971, mas ela entrará em vigor aos poucos."

Tecnicamente, diz Moreira, a nova ortografia já poderia estar em vigor desde o início do ano. Isso porque a CPLP definiu que, quando três países ratificassem o acordo, ele já poderia vigorar. O Brasil ratificou em 2004. Cabo Verde, em fevereiro de 2006, e São Tomé e Príncipe, em dezembro.

António Ilharco, assessor da CPLP, lembra que é preciso um processo de convergência para que a grafia atual se unifique com a nova. "Não se podem esperar resultados imediatos."

A nova ortografia deveria começar, também, nos outros cinco países que falam português (Portugal, Angola, Guiné-Bissau, Moçambique e Timor Leste). Mas eles ainda não ratificaram o acordo.

"O problema é Portugal, que está hesitante. Do jeito que está, o Brasil fica um pouco sozinho nessa história. A ortografia se torna mais simples, mas não cumpre o objetivo inicial de padronizar a língua", diz Moreira.

"Hoje, é preciso redigir dois documentos nas entidades internacionais: com a grafia de Portugal e do Brasil. Não faz sentido", afirma o presidente da Academia Brasileira de Letras, Marcos Vilaça.

Para ele, Portugal não tem motivos para a resistência. "Fala-se de uma pressão das editoras, que não querem mudar seus arquivos, e de um conservadorismo lingüístico. Isso não é desculpa", afirma.

Uma canção para Laila

the Velvet Underground & Nico: Femme Fatale

Femme Fatale

(Reed)


Here she comes, you better watch your step

She's going to break your heart in two, it's true

It's not hard to realize

Just look into her false colored eyes

She builds you up to just put you down, what a clown


'Cause everybody knows (She's a femme fatale)

The things she does to please (She's a femme fatale)

She's just a little tease (She's a femme fatale)

See the way she walks

Hear the way she talks


You're written in her book

You're number 37, have a look

She's going to smile to make you frown, what a clown

Little boy, she's from the street

Before you start, you're already beat

She's gonna play you for a fool, yes it's true


'Cause everybody knows (She's a femme fatale)

The things she does to please (She's a femme fatale)

She's just a little tease (She's a femme fatale)

See the way she walks

Hear the way she talks

O nosso mundo


Quatro estações se passaram e a sua ausência ainda é um fantasma que me persegue a cada dia, a cada hora, a cada minuto.


Os momentos, as fases e as épocas às vezes se desentendem e insistem em não serem simultâneos, nos levando por caminhos diferentes. Longe o suficiente para manter as mãos afastadas do toque mas perto o suficiente para continuar sentindo o calor do corpo do outro. Os olhos não vêem, mas o coração ainda sente sua presença.


Será que isso vai acabar um dia? Ou vai ser uma eterna punição por uma escolha que foi capaz de alterar o curso de um rio e fazer a terra fértil e verde se tornar um campo árido, impermeável e incapaz de gerar sequer um broto de esperança no que poderia ser o amor? Será que as borboletas voltarão a voar por aqui?

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Play

Não sei se Deus existe, nunca o vi. Em vez de crer em um ser superior, que olha pra tudo o que as pessoas fazem e no fim da vida determina quanto e como cada um vai ter que pagar pelos seus atos, prefiro acreditar que somos responsáveis por tudo o que fazemos e pelas consequências também. Consequências que vêm agora, hoje, ou amanhã, mas voltam pra gente ainda nesta vida e não depois da morte. Pra mim, não existe céu, não existe inferno e os frutos de nossas escolhas serão colhidos aqui e agora.


Mais importante do que temer a eternidade queimando no inferno, ou uma próxima vida cheia de sofrimento, é conseguir conviver com a própria consciência. Nosso julgamento não vai ser feito em um tribunal da alma, mas sim a cada momento dentro de nós mesmos. Todas as nossas ações, secretas ou reveladas, vão nos acompanhar por todos os dias da nossa vida e o maior juiz, o maior carrasco, é a própria consciência. E conviver com o veredicto negativo de nós mesmos é a pior punição que se pode ter. O peso da culpa é o maior que se pode carregar e, às vezes se torna insuportável. Então a questão é: quanto peso você aguenta carregar?

Isso é mostrado no filme "O Sonho de Cassandra", de Woody Allen, que assisti há algum tempo. Dois irmãos reagem de forma diferente às consequências de um mesmo ato. Para um aquilo se torna insuportável, já o outro continua levando uma vida normal como se nada tivesse acontecido. Na peça "Senhora dos afogados", de Nelson Rodrigues que está em cartaz no Sesc Anchieta, com direção de Antunes Filho, a mesma coisa acontece com membros de uma família. Moema, a filha, apesar de admitir que os crimes que cometeu a atormentam todos os dias e corroem sua alma, age de forma natural, pois a satisfação de ter atingido seus objetivos é maior do que a culpa. Jå seu pai não consegue aceitar seus próprios atos sozinho e busca no outro - alguém que possa ser considerado tão culpado quanto ele - para tentar se redimir. Um sente culpa,outro não.


A medida entre o valor que se dá para o que se quer e o esforço que terá que ser feito para conseguir deve ser decisiva na hora de se fazer uma escolha. E isso é algo muito particular a cada indivíduo, provém dos valores, da visão de mundo, dos anseios, das crenças, do modo de vida e da vivência de cada um. Por isso, ninguém pode se sentir digno de julgar os atos de outra pessoa. Como você pode saber qual seria a sua atitude ou a sua reação se estivesse naquela hora e naquele lugar? Como pode saber que não faria algo igual ou pior? E pior ou melhor pra quem? As pessoas são imprevisíveis e ninguém consegue conhecer nem mesmo a si tão profundamente para saber o que pode ser capaz de fazer em todas as situações.


O ser humano age por instinto, instinto de sobrevivência, que é o fator elementar e determinante de todos os sentimentos, sensações e desejos do homem. Afinal, somos animais. A sociedade criou regras que contrariam os instintos e desejos humanos e, a partir delas, julga seus membros. Se levarmos em consideração que Deus é o responsável pela criação de tudo, é como se ele estivesse procurando algo para se entreter. Dá ao homem impulsos e livre arbítrio para segui-los ou reprimi-los, mas diz que eles são errados, feios e sujos e que podem levar a uma punição. E nós ficamos aqui, nos equilibrando entre o certo, o errado, o aceitável e o inadimissível. Muito divertido pra quem está de fora, né? Mas será que é possível se libertar disso?

domingo, 18 de maio de 2008

O importante é ser tranquilo e otimista...

Tout Doucement lyrics

(Feist)


Tout doux, tout doux, tout doucement

Toujours, tout doux, tout doucement

Comme ça

La vie c'est épatant


Tout doux, tout doux, tout doucement

Toujours, tout doux, tout doucement

Comme ça

La vie je la comprends


N'allez jamais trop vite

Vous aurez tout le temps

Attention à la dynamite

Prenez garde au volcan, à ces gens énervés

Qui ne savent pas aller


Tout doux, tout doux, tout doucement

Toujours, tout doux, tout doucement

Comme ça

En flânant gentiment


N'allez jamais trop vite

En aimant simplement

Pour avoir de la réussite

Soyez très très prudent

L'amour alors viendra

Se blottir dans vos bras


Tout doux, tout doux, tout doucement

Toujours, tout doux, tout doucement

Comme ça

En flânant gentiment

En souriant gentiment

En flânant gentiment

Tout doucement 

Changes


A Laila acordou de mau humor hoje. Cansou de ser o que ela era. Foi na farmácia, comprou água oxigenada e blondor. Voltou pra casa, pegou uma tesoura, entrou no banheiro, picotou o cabelo e depois descoloriu. Olhou no espelho e achou que ficou bom. Viu outra pessoa ali, mas do lado de cá ainda era ela. 

Sensação e compreensão (retomando)


O que é mais importante na arte e o que faz com que algo seja considerado arte?


Alguns acham que o que importa é a forma, outros o conteúdo e há alguém ainda que diz que o importante é fazer o espectador pensar, transmitir uma ideologia.


Pra mim arte é o que desperta algum tipo de sensação ou sentimento no espectador. Despertar, no dicionário, significa fazer sair do estado de torpor ou de inércia, fazer readquirir força ou atividade, provocar, excitar, estimular, é o ato ou efeito de abandonar a indiferença, a inatividade, ou de iniciar um processo.


Assim, estimulando sensações e sentimentos em quem aprecia, a arte abre caminho para um novo olhar, um novo pensar, ou o pensar sobre um novo objeto não observado antes. Mostra novas perspectivas, que podem ou não ser aceitas e incorporadas, mas que, no mínimo, geram um certo questionamento, um “Como eu não tinha pensado nisso antes?” ou um “Não, isso não é bem assim”. Dessa forma, idéias novas serão adquiridas ou idéias já existentes serão reforçadas, ampliando horizontes.


Por esse motivo, para aproximar o espectador da obra é preciso abordar sentimentos universais e elementares, pertencentes à essência do ser humano desde que ele habita a Terra. Paixão, amor, raiva, medo, desejo, ausência, ou a combinação de tudo isso. Mesmo que o objetivo seja transmitir uma determinada idéia que, aparentemente possa não ter relação com esses sentimentos, é estimulando a sensibilidade do espectador que se tem a maior chance de cumprir a tarefa de modo eficaz.


Com relação ao observador, é necessário que esteja disposto a abrir a mente e o coração. A técnica é apenas a superfície, o meio é apenas o caminho. Arte não é para entender é para sentir. É essencial que se vá além. Somente sentindo, é que se consegue ter a compreensão de seu significado.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Na lama

Tô na lama... mas quem não tá?
O problema pode ser escolher a roupa, resolver ligar ou não, mudar de casa, de trabalho, de país, jogar tudo pro alto...
A vida sempre coloca uma encruzilhada no nosso caminho. E quem pode dizer se o melhor é ir pra esquerda ou pra direita? O duro é que quando você olha pra trás, a estrada de tijolos amarelos já ficou invisível, sumiu no ar e não dá mais pra voltar pra onde tudo começou.
E, na verdade, quando você percebe, é você que está com um saco cheio de tijolos amarelos nas costas, colocando um na frente do outro pra construir o seu caminho. E, às vezes, parece que quanto mais você os coloca na estrada, mais pesado o saco fica.
É nessas horas que você tem que ver que talvez cada um daqueles tijolos represente um sonho seu e isso significa que você pode ir cada vez mais longe.